terça-feira, 7 de maio de 2013
Deixa falar a intuição
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Quando tudo está bem, o que se torna difícil?
Quando as coisas vão bem, o que se torna difícil? Hoje, um professor
meu fez uma brincadeira comigo, dizendo que eu vivo em crises. Disse que sim,
que era normal de mim. Mas quem não vive em crises?, pensei depois? Ele, será?
Bem, depois de sua provocação, ele em si não importa mais. Importa tudo o que
restou na minha mente inquieta. Preciso de dinheiro, preciso de emprego,
preciso de boas ideias para desenvolver meus projetos e minha pesquisa do
doutorado. Vendo que já estou a caminho de todos esses objetivos, sobram poucas
crises para administrar. Assim, sobra fôlego e intervalo entre elas para
desenvolver esses passos que me faltam dar até chegar a esses objetivos... mas
a pergunta ficou na minha cabeça: por que eu vivo tanto em crise? Nem sei mesmo
se é essa a minha natureza. Acho que nem é. Eu sou conhecido por mim mesmo como
alguém que leva a vida numa boa, como alguém que ama viver e estar vivo.
Confesso que tenho tido tempo e disposição para aproveitar um pouco a vida, mas
também tenho me dedicado duro na missão de me tornar um alguém válido
socialmente o mais rápido possível. Mas o relógio não funciona ao nosso desejo,
nem se dá conta das nossas vontades. A espera é uma das partes da vida que
menos gosto. E esperar por alguém que não chega parece se tornar um pouco da
minha sina. Isso só porque eu é que fico esperando. É ninguém mais do que a
minha própria pessoa que cria a sensação de espera. A expectativa. Todos nós
vivemos melhor sem ela. Eu, que odeio expectativas, estou aqui, cheio delas,
sem saber onde enfiá-las. E eis a minha mais nova crise. Sorte minha eu me amar
o bastante para ter forças para deixar tudo isso para lá. Quando as palavras
que eu escrevo vão se materializando na frente dos meus olhos, eu sinto como se
eu mesmo tirasse de mim um espinho que me atordoa. Eu sou a minha própria cura.
Nada de remédios por hoje, e que esse hoje dure o mais longo dos tempos. Tanta
patifaria de ansiedade, tanto alvoroço, depois tanta morbidez com tanta
medicação, e no fim, estou eu aqui de novo, sendo ninguém mais que eu mesmo, um
alguém em plena crise. Crise que eu posso abdicar, mas não quero. E o professor
lá, com aqueles olhos azuis me falando: você está em crise. Tudo em volta
daqueles faróis vão se apagando e seu rosto vai se modificando, transfigurando.
Os olhos são a janela da alma. A minha não tem janela. Tem uma porta bem larga,
um buraco bem fundo. Um vazio intenso todo preenchido de crises a serem
administradas. Estou para conseguir um trabalho graças à doença de alguém que
será levado a uma mesa de cirurgia, que será impedido de trabalhar por dois
meses. Como eu posso odiar a doença? Seja a minha, seja a do outro, é ela quem
me abre portas, às vezes. O que é bom e o que não é? Nas crises também aprendo.
Hoje, aprendi mais uma lição. Vou respeitar melhor minha condição e viver
melhor comigo mesmo. Afinal, eu me amo, tenho que suportar minha própria companhia.
Pergunta inicial: quando as coisas vão bem, o que se torna difícil? Acho que
minha resposta é lidar comigo se torna difícil, porque quando não estou em
crise, resta-me tempo de sobra para olhar para mim mesmo. Nem sempre gosto do
que vejo. Alguns ajustes precisam ser feitos. Assim seja, assim como está é que
não pode ficar.
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sexta-feira, 3 de maio de 2013
Efeitos das medicações
Quando estou medicado, tudo ao
redor vai perdendo os tons das cores. As mais vivas vão ficando opacas. As boas
notícias vão ganhando um gosto de indiferença. Tudo o que eu preciso nesse
momento é botar para fora um choro que fica escondido na garganta da alma. Mas
os remédios se transformam cada vez mais numa barreira intransponível.
Ontem, tive uma proposta de
emprego que me pareceu bem razoável. Um bom plano. Uma sensação de que pelo
menos metade das razões das minhas angústias estaria resolvido. Depois da
entrevista, das notícias, eu fiquei ali, extasiado?! Não, fiquei feliz. Mas uma
felicidade um pouco mais distante, impessoal. Era como saber que alguém que eu
não conheço conseguiu algo que precisava muito. Não parecia ter relação comigo.
Talvez seja esse o ponto.
Medicado, eu não me conheço. Dizem-me nem notar diferença. Isso me assusta um
pouco. EU me sinto diferente. Eu me sinto neutralizado, neutro. Eu não me sinto
eu. Sorrio menos, abraço menos, beijo menos, desejo menos. A combinação
bombástica de rivotril e exodum me deixam assim. Eu fico com ânsia de vômito no
papel de reações adversas. Mas fico ali. Neutro. Se eu tivesse uma estante no meu quarto,
tenho certeza de que seria um lindo bibliocanto. Eu adoraria escorar meus
livros. Eles não têm falado comigo da maneira necessária. Mas eu os escoraria,
para mantê-los bem em pé.
Nessa sociedade somos tão
objetificados tantas vezes que querer ser um objeto talvez seja parte. Ainda
não quero com tanta força ser neutro. Ontem foi o primeiro dia de combinação
desses medicamentos. Uma hora, no período da noite, um deles começou a perder o
efeito. E aí eu ri, sorri, quase até que gargalhei. Ouvi músicas, cantei,
dancei. Mas passou. No lugar da quase euforia vem o nó na garganta outra vez.
Êta nó que não desata.
Agora, estou aqui, novamente
medicado. Vendo tudo pender para os tons de preto e branco. A comida já não me
atrai, a bebida não me diz nada, os amigos, fico feliz de tê-los por perto, mas
não tenho mais força para busca-los. Aquela companhia que parecia ser
indispensável, de repente, tornou-se uma visita distante, uma visita rápida.
Quando eu parar com as medicações
[sim, porque eu pretendo parar], tudo vai voltar ao normal, aos poucos. E eu
espero conseguir recuperar um pouco desse eu que eu gosto e prefiro. Mas por agora, eu sei que lá no fundo tem um
de mim que quer chorar. Mas não chora. As lágrimas foram secas com lenços de
exodum.
Para quem busca entender os
efeitos desse medicamento, fica aqui a dica: é o ensaio da morte. O sono é
pesado e sem fim. Não se sonha. Não se fantasia. Dorme-se e fim. Ponto final.
Um ponto final que dura até o dia seguinte. Cada dia mais, cada remedinho mais,
o lindo nascer do sol se torna tão comum que a sensação de ver cada manhã um
espetáculo se torna mais maçante que ver um filme longo e chato por repetidas
vezes no mesmo dia. Estou começando a
entrar de novo na parte do tratamento que parece que vivo dez mil vezes o mesmo
dia. Mas isso também vai me ajudar a ficar calmo para estudar. Ah, pelo menos
isso. A médica disse que nesses momentos eu devo buscar fazer o que me agrada,
o que me deixa feliz.
O que me agrada... o que me deixa
feliz... humpf. Não quero mais pensar
nisso.
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quarta-feira, 1 de maio de 2013
Crises de ansiedade, fascículo mil
Tudo na vida tem o seu preço.
Negligenciar o tratamento de transtornos de ansiedade também está neste pacote.
Como fere uma crise. Como perder o controle de si é ruim. Mas as coisas parece
que nunca se formam na minha cabeça como uma base de aprendizagem. A ansiedade
não me deixa ver que é ela que está por trás de pequenas oscilações de humor
durante o dia. E quando a coisa estoura, pronto. Já é tarde de mais.
Já venho dizendo há alguns dias
para mim mesmo que estou sentindo uma leve ansiedade, uma inquietude que fica
dentro do meu corpo, que vira uma vontade estranha nos pés de caminhar sem
rumo. Mas no sábado eu me segurei. Durante o almoço com pessoas de bem, tudo
parecia sob controle. Tudo mesmo. Nada parecia tocar aquela sensação gostosa da
paz que é de estar entre gente querida. Mas não.
De repente, depois de termos
comigo, no tal do cigarrinho de depois, eu passei a sentir um quê de incômodo,
mas não sabia dizer exatamente o quê. A coisa foi toando formato e de súbito lá
estavam minhas mãos esfriando e meu estômago querendo se desfazer daquela
refeição tão bem preparada, gostinho de amor. A ansiedade aumentando e eu
acreditando que era a pressão caindo. Talvez fossem os dois juntos, de mãos dadas,
moldando o meu eu que surgiria nos dois dias seguintes. O desconforto do
estômago e a tontura, a tremedeira, o frio por dentro do corpo, tudo estava lá,
germinando. E eu apostando na pressão. Mas acabei por entender que era que
estava ficando ansioso.
Rivotrilei um sublingual e
esperei, deitadinho no chão, no quietinho, esperei a espera para o efeito
começar. E começou. O jardim voltou a ficar verde, as plantas e as flores
voltaram a brilhar naquele jardim que me assistia sucumbir sem mesmo que eu
soubesse o que acontecia. Não sei pontualmente o quê, claro, mas algo estava
fora do lugar. Talvez fosse só minha paz de espírito, que foi se alongar por
aí, para lá de mim.
O dia terminou de passar lindo.
Cuidamos do jardim, cuidamos das plantas e a noite cuidou de nós. A lua
enluarou toda a cena e enfeitou com seu ar prateado nosso triunfo sob o espaço
verde. Que lugar gostoso aquele.
No dia seguinte, eu, crente que
era fortão, passei o domingo de manhã na companhia das mesmas alegrias do dia
anterior. Mas foi chegando mais gente, e mais e mais. E eu lá, acreditando na
força que eu não tenho, mas que naquele momento eu tive. Eu me comportei.
Muitas risadas e muitas conversas. Partes leves e pesadas dos que partilhavam
daquelas xícaras de café de amizade respingavam na minha alma. Ora me faziam
rir, ora me faziam pensar em mim próprio, nas minhas ações. A história do
castelo de areia, daquele que não saiu da planta. A planta que não saia da
cabeça de sua arquiteta. A relação unilateral fadada ao fim. E lá estava eu, de
plateia. Parecia que eram pessoas contanto minha própria história, espalhada em
diversas bocas. Mas ouvi tudo e calei. Quando oportuno, opinei. Às vezes, eu só
queria sair, ir embora, partir. Mas por quê?, eu me questionava. Estava tão bom
ali? Minha adrenalina brincando nos meus pés não entendiam nada disso.
Domingo à noite terminou na rua,
com bar e mais gente. Na mesa, aqueles de antes, mas em volta, mais gente
ainda. Eu estava lá, claramente me convencendo que eu era forte. Escondi até de
mim mesmo o desconforto social. Ansiei e até mesmo tive momentos de querer
levantar e partir. Mas fiquei, eu era forte, pensei. E fui. Fiquei até o fim.
Até que todos juntos se levantaram e seguiram seus rumos. E eu segui o meu, que
não era bem o meu, mas era um rumo que mantinha bom compasso no meu coração.
Ahh, coração, coração. Batendo ora forte, ora fraco, ora lento, ora rápido. Mas
sempre batia. Eu estava vivo e tudo isso faz parte da vida.
Segunda-feira, dia do terror.
Logo pela manhã, acordei com um grito preso na garganta, um grito que eu abafei
e impedi de sair. Gritei para dentro de mim. Era o que tinha que ser feito.
Soltei pequenas pílulas de estresse e descontentamento, percebido de leve por
aqueles que estavam do meu lado. Mas nada de alarmismos. Eu nem mesmo sequer
comentara dos riscos que eu mesmo sofria. Acreditei, com a força da minha
ingenuidade, que tudo passaria jajá. Mas não passou. Foi crescendo. Briguei
pelas pequenas coisas da vida, pelos pequenos planos do dia. Chutei a porta dos
estabelecimentos que precisava ir. Não sorri para ninguém. Não tinha sorrisos
guardados naquele dia.
Então, de volta para casa, achei
que estava seguro, protegido. Consciente de que eu precisava mesmo era relaxar,
preparei para mim mesmo uma bela de uma caipirinha. Desceu gostosa pela
garganta. Pareceu ter mesmo lavado os gritos sufocados que eu escondi. Uma,
duas, três. Até que os planos mudaram. Bem acompanhado, fui a um bar, bem
típico, onde ficássemos à vontade. O mesmo bar do domingo. Lá, comemos,
bebemos. Rimos e fomos felizes. Mas não, algo era crescente em mim. Bastou a
gota d’água para fazer tudo ir pelos ares. Não importa qual gota tenha sido
essa, já estava tudo voando para todos os lados. Meu olhar perdido, não focava,
procurava um certo conforto que não estava naquele lugar. Fomos até a casa de
uma amiga. Lá, mais gente desconhecida. Era para eu ter me sentido acolhido,
porque fizeram de tudo para que fosse assim.
Tentei impedir. Tentei escapar
dali. Consegui. Corri, mas não sabia para onde eu ia. Cheguei em casa, mas não
durei muito tempo. Saí de novo. Andei andei andei e fiz tudo o que eu podia
para me arrepender pelo resto amargo do dia da terça. O feriado que minha paz
tirou para descansar de mim. Nesse episódio maluco, 5 doses do sublingual
rivotril nem fizeram cócegas em mim. Tiraram-me o olhar de loucura. Não me
trouxeram nem um pouco de doçura. Saí às 3h40 para caminhar. Caminhei por uma
hora, e na hora seguinte foi a vez da minha razão sair por aí.
Eu tenho sorte ainda assim de ter
boas companhias. Não gosto de envolver as pessoas nas minhas crises de
ansiedade, de pânico. Mas não consegui evitar. Quando vi, estava feito. E agora
estou aqui, juntando os meus próprios cacos. Está certo e claro, eu não sou
forte, sou fraco. Vou retomar meus remédios depois da aula tensa de amanhã.
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sexta-feira, 26 de abril de 2013
A paz que deus (não) me deu.
Quem sabe dizer do que se faz o coração? De fibras
musculares que fazem pulsar o sangue por todo o corpo? Não é do coração físico,
mas do sentimento. Onde esses dois se encontram? Esses dois corações que batem
em meu peito? Por que os dois devem bater no peito? Quem decidiu que o coração
emoção moraria no peito foi o próprio coração razão. Seria esse um sinal que a
razão está sobre a emoção e não o contrário? Sim a resposta é essa. E eu odeio conhecer
a razão, dominar a razão, e a emoção ao deusdará. Que deus, o quê. E o que ele
dará? Ele tem me dado desgosto só. Tem orientado seu povo na terra contra o
amor. Tem orientado o povo na terra a favor dos formatos quadrados, retilíneos,
straghts. Eu odeio esse deus. Esse cara que existe na cabeça das pessoas e que
diz que ama todos mas que vai me mandar para o Inferno. Eu já estou no inferno,
cara. Eu já conheço o calor que faz por aqui. Logo o calor, mais confortável
que o frio. Um deus de amor que vive de obstáculos. Um deus platônico, cujo
amor é inatingível. Eu me sinto um romântico olhando para esse deus. Por isso
escolho meus próprios ídolos. Não adoro ovelhas de ouro, deus sim. Não em
formato de ovelhas. Em formato de ouro. Não é de hoje, é de séculos. Eu não
acredito no cristianismo. Eu não acredito no formato que ele deu às emoções do
ser humano. Eu não acredito no pecado, porque eu não sei dizer o que é certo e
o que é errado. Eu mentiria se dissesse que a bondade é o caminho, porque o que
eu sei da bondade foi esse mesmo deus quem me ensinou. Eu não confio nele. Essa
é a minha profissão de fé. Eu desconfio dele. Eu odeio ter que negar a letra
maiúscula cada vez que escreve o substantivo que se refere a ele. Ele. É onde
sua letra maísculua cabe. No incício de frase. Eu faria um d bem grande, em
formato de minúsculo bem na fuça da frase para mostrar meu descontamento. deus,
me deixe em paz, a dita que você tanto quer pregar entre nós. Eu não acredito
nos seus propósitos. Você é uma invenção humana, assim como eu, como o amor que
late no meu peito. Como o coração que pulsa fora e dentro da minha razão. Eu
amo o amor, mesmo sem saber direito quem ELE é. E se não o sei, a culpa é somente
Sua, ó deus dos desmisericordiosos. deus dos seres não odiosos. Eu sou odioso,
eu sou detestável. Eu sou meu próprio deus, à imagem e semelhança do que eu
penso ser sacro para mim. Eu não me conheço, meus sentimentos vivem num poço
sem fim. Esses meus sentimentos que muitos anos deus atormentou dizendo que eu
não deveria. Ainda existe a ultima hora para o arrependimento. Ainda existe? Eu
já não sei se eu quero me arrepender. Eu quero mesmo é mergulhar nessa lama,
pois a terra e a água é igual a vida. A vida que esse mesmo deus me nega viver.
Meus corações não batem em compasso. Eu não sei a distância do peito até a
cabeça. Eu não sei o que o peito e a cabeça fazem juntos. Deus, me liberte de
ti, eu te emploro. Deixa-me ser livre. Não me conte das dez regrinhas que você
criou. Deixe que eu crie as minhas. Deixe que eu viva por mim e não por você.
Deixa eu fazer meu bezerro de ouro, feito de escárnio e mal dizer. Deixa-me ser
livre de verdade. Deixa-me o poder do livre arbítrio. Pare com essa farsa de
Inês Pereira. Eis a hora derradeira. Se você me ama de verdade, deixa-me viver
na sociedade que eu (não) escolhi. Eu (não) sou mais eu. Deixa-me daqui pra
frente ser o meu próprio (Des)deus.
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terça-feira, 23 de abril de 2013
Sentidos para o ar
Quando passou o ar, que em si, era diferente
Meus sentidos se cegaram
O breve toque, seu hiato,
O cheiro, alheio, no inverso vácuo
O gosto na minha boca inventado
Só real como a vista
Fogo etéreo, desejo artista,
Ártico filosofista
E como ar que era, em si próprio se desfez
O tato, o olfato, o palato,
O seco, vácuo.
A visão, a audição,
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O cara que voa
Lembrar-se dos sonhos tem sido
tão raro nos últimos dias... não por falta de produção onírica, mas talvez por
não ter mais a mesma capacidade de me recordar das coisas malucas que nos
ocorre durante esses momentos que a cabeça finge que para de funcionar. Bem,
vamos ao sonho desta noite. O sonho interrompido. Em geral, não temos títulos
para sonhos, mas o sonho é meu e eu coloco um para ficar mais especificamente
um texto transfigurado de um sonho.
O CARA QUE VOA
Ana Flávia é uma linda mulher,
negra, respira afrobrasilidade. Não existe sorriso na terra que passe mais boa
sensação que o dela. Não existe alguém para se estar do lado sem sentir-se num
sonho. Pois então que em sonho ela me chamou para uma festa afro-brasileira.
Eu, certamente, aceitei de pronto. A festa estava lá, era pensar que ela
existia e já estávamos nela.
Minha amiga tinha desaparecido
temporariamente, afinal, minha mente produzira a festa quase que
instantaneamente com o aceite. Assim, ela não teve nem tempo de se aprontar. E
não muita gente preenchia o espaço da festa. Um cômodo para ser mais exato. Um
cômodo não muito grande e uma música mais batucada. Banquinhos pequenos e
baixos espalhados por todos os lados, mas ninguém tomava o acento. Todos
ficavam dançando para lá e para cá.
Aos poucos, fui me dando conta
que as pessoas iam ficando de roupa branca, tudo foi ficando branco. Até que
chegou Ana Flávia. Seu corpo nu, coberto por uma espécie de tinta que dava em
sua pele uma textura de um pó sobre ela toda. Menos os cabelos. Esses, negros
do contraste, reluziam mais que o branco. Observei que o pálido apagava seu
brilho. Ela veio, não olhou e não falou com ninguém. Pôs-se no meio do cômodo
numa posição e começou a fazer uns movimentos que me fizeram crer que eu estava
diante de uma manifestação artística. Ela começava sua coreografia com um ritmo
no corpo que eu não conhecia. Depois de longos minutos, eu me dei conta que eu
era o único que olhava para ela, impressionado. Todos ainda simplesmente
dançavam.
Fiquei como que hipnotizado pela
linda cena que eu via. Ela olhou para mim com uma frase nos olhos: vem dançar.
Era como se fosse uma ordem para o meu corpo. Aos poucos fui abaixando também,
contorcia-me como se uma serpente se manifestasse dentro de mim aos poucos. Nem
cheguei a me abaixar completamente, já tinha subido de novo e já estava entregue
ao ritmo dos tambores. Dei-me conta de que eu também usava branco. Eu não me
lembro de ter me trocado. Mas é preciso retomar sempre que é um sonho. Em
geral, esses que são mais reais precisam desse toque de “pé no chão”.
O ritmo dos tambores já tinha
tomado conta de mim e de todos na festa. Mas tudo foi interrompido por um
gatuno. Um ladrão, que simplesmente saiu correndo. Eu não vi o que ele roubara,
mas todos correram atrás dele dizendo: PEGA!!! Eu dei uns passos andando mais
rápido, junto com a multidão. Eu queria fazer algo de bem para aquele lugar que
me tratava a alma tão bem. E num passo largo alcei meu voo onírico. Ah, como me
fez bem tomar umas lições de voo sonhos atrás. Voei por entre os galhos de árvore e entendi
que estávamos num sítio, ou numa chácara. Estávamos atrás do ladrão. E eu,
pelos ares, cheguei primeiro que todos. Era só captura-lo.
Mas algo na fala dele me
surpreendeu. Algo que eu não esperava. Eu fora reconhecido. Ele apontou para
mim e disse como se tivesse uma plateia para ouvi-lo: Olha o cara que voa de
novo! Fiquei com medo de ser reconhecido. Lembro-me de uma sensação de ter
feito algo errado e ter sido dedurado. O ladrão conseguiu inverter toda a minha
sensação com um dedo apontado para mim no céu. Estava feito, e eu ali voando de
volta entre a copa das árvores, fugindo sabe-se lá do quê.
Claro que significa muita coisa,
mas durante o sonho não é momento de reflexões de ajuste de personalidade e de
medos e ansiedade. Simplesmente corri voando de volta para a festa. Mas não
tinha ninguém lá. Parece que todos estavam empenhados na busca do ladrão. E eu
não tinha o que fazer a não ser fechar uma janela que estava lá, aberta para
mim. Talvez quisesse só fechar porque era tarde, mas agora escrevendo, parece
mais ainda que eu queria mesmo era me fechar do mundo.
E eu fechando as janelas, ou
aliás – tentando. Quando de repente, não mais que de repente surge uma cabra
pela janela. Uma cabra. Simples assim. Um ser caprino, que colocou a cabeça
pelo lado de fora e ficou me olhando. Fez um béééééé. E eu pensei: bom, vou ter
que fechar a janela mesmo assim, querida. E quando eu tentava fechar, ela
enfiava a cabeça pelo vão. Era uma janela verde, dessas que abrem no meio e
fecham com uma taramela. E a cabra lá. Quando criei coragem para empurrar com a
mão a cabeça dela, surgiu outra. Elas se revezavam para me atrapalhar na árdua
missão de fechar o cômodo... Acordei com o telefone tocando.
Os sonhos sempre trazem sentidos
ocultos que nos revelam muitas coisas. A cabra eu vi um gif no dia anterior, um
que retratava duas cabras inconvenientes. Eu querendo me fechar em mim, e as
cabras querendo quebrar meus planos ao meio. Eram duas que se revezavam. Como
no gif, duas também. E eu querendo fugir... que parte do meu dia me anda
fazendo querer fugir? Acho que preciso pensar...
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