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sábado, 1 de fevereiro de 2014

Globo paga de bonita depois do Beijo Gay

Eis o comunicado da Globo sobre o beijo de Niko e Felix


 “Toda cena de novela é consequência da história, responde a uma necessidade dramatúrgica e reflete o momento da sociedade. O beijo entre Felix e Niko selou uma relação que foi construída com muito carinho pelos dois personagens. Foi, portanto, o desdobramento dramatúrgico natural dessa trama. A pertinência desse desfecho foi construída com muita sensibilidade pelo autor, diretor e atores e assim foi percebida pelo público. É importante lembrar que o relacionamento homossexual sempre esteve presente nas nossas novelas e séries de maneira constante, responsável e natural. A cena esteve de acordo com essa premissa e com a relevância para a história”.

Vamos começar?
“Toda cena de novela é consequência da história, responde a uma necessidade dramatúrgica e reflete o momento da sociedade.” – Pera lá, cara pálida. A necessidade dramatúrgica o escambau! Leia-se o medo de perder tantos telespectadores. O momento da sociedade de ver o beijo gay está sobressalente na boca do povo e na mídia já faz alguns anos. Não venham querer se colocar como “dentro do tempo”, ou “somos super atuais”, ou “olha só que novidade vamos propor”! De fato, o beijo em rede nacional no horário nobre foi uma novidade, mas não façam parecer que foi ontem que o assunto nasceu, heim?
“O beijo entre Felix e Niko selou uma relação que foi construída com muito carinho pelos dois personagens.” – É delicado falar disso, né? Estamos num momento – pelo menos para a Globo – de construir uma base social de aceitação do gay. O beijo foi feito dentro de muito carinho. Agora, tem muito personagem na novela que beijou e transou horrores por puro erotismo. O gay não pode só curtir, então? O que me parece é que a Globo quer promover a aceitação do gay com base nos contos de fada da Disney. Não, globo, não faça isso!! O beijo gay é libertação e os contos de fada é resignação!! Só falta agora colocar o gay esperando outro gay num cavalo branco e tal. NÃO!
“Foi, portanto, o desdobramento dramatúrgico natural dessa trama.” – Natural seria se tivesse aparecido um beijo do Eron e do Niko, que foram o casal gay da novela por muito mais tempo do que a relação do Felix e do Niko. Desdobramento natural o carai, mano! Então o Eron e o Niko não se amavam? É isso???
“A pertinência desse desfecho foi construída com muita sensibilidade pelo autor, diretor e atores e assim foi percebida pelo público.” – Pertinência? Foi o capítulo mais longo do mundo, e vários casais se casaram durante a novela. Porque não casaram o Niko e o Felix também, então?? Porque não fizeram o beijo na frente do juiz de paz? Eu sei, calma, um passo de cada vez, mas, Globo, se liga, fia! Vem sambar agora de boazuda? Não dá, né?


Cansei!! Vou estudar ;) A globo querendo sair de heroi, né? Tenho muito medo!!

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Dia do Homem (pra quê mesmo?)



O dia do homem é todo dia, numa sociedade de base machista e patriarcal, como é no Brasil e na maioria das sociedades letradas. Qual o sentido de celebrar um dia para o homem? Todas as ações do cotidiano das pessoas já reforçam a supremacia masculina perante a feminina. A data foi recentemente criada, posterior ao Dia da Mulher. Parece-me mais uma contra-palavra do que uma data com intensões de promover a igualdade entre os sexos.
Se pensarmos na lógica do Orgulho Gay, o que temos é um dia que enfatiza que o gay também tem o seu lugar na sociedade. Um lugar que não pode ser exercido graças ao papel hiper ativo dos homens. Como alguém disse e eu gostei, não é um dia para celebrar o fato de ser gay, mas de reivindicações sociais em prol dessa minoria social. É estranho se houvesse o dia do Orgulho Hétero. Não é vergonhoso ser hétero em nossa sociedade. O grupo não precisa de reforços, não precisa sair do armário, não precisa provar que é gente, não precisa nada disso. Os héteros existem e pronto. Eles governam a vida social ainda. Não precisam de políticas de auto-afirmação.
O Dia do Homem pode ser pensado na mesma direção. Por que precisamos de um dia que reforce o caráter masculino se já vivemos em uma sociedade machista, patriarcal? No outro lado da moeda, temos o Dia da Mulher, que celebra a luta da mulher pelo seu reconhecimento na sociedade e seu espaço nela. Mulher é burra, ganha menos, é fraca, é incompetente, fofoqueira, fútil etc. Todos esses aspectos da mulher são posições criadas por homens e adotadas inclusive por milhares de mulheres. Também, você nasce numa sociedade que te diz e te mostra isso o tempo todo, como discordar? Você nasce numa sociedade que diz isso milhões de anos antes de você nascer, como discordar? Existe uma proposta coerente para o dia da mulher, que não se replica na proposta do dia do homem.
Numa pesquisa sem muita profundidade achei isso:

A diretora da Secretaria de Mulheres e Cultura de Paz da UNESCO, Ingeborg Breines, disse que a criação da data é "uma excelente idéia para equilibrar os gêneros".1 Os objetivos principais do Dia Internacional do Homem é melhorar a saúde dos homens (especialmente dos mais jovens), melhorar a relação entre gêneros, promover a igualdade entre gêneros e destacar papéis positivos de homens. É uma ocasião em que homens se reúnem para combater o sexismo e, ao mesmo tempo, celebrar suas conquistas e contribuições na comunidade, na famílias e no casamento, e na criação dos filhos (wikipedia).

Como se quer combater o sexismo fazendo um dia para glorificar o grupo que já tem a força social maior? Como se pretende equilibrar os gêneros se o homem já é o lado mais pesado da balança? Não deveríamos colocar mais peso nos outros pratos para igualar de verdade? Fora a saúde do homem, o resto da argumentação está em torno da questão do gênero. Isso reforça a ideia que coloquei no começo do texto. Celebrar as conquistas e contribuições na sociedade feitas por homens? É claro que foi feita muita coisa por eles, afinal, eles coibiram as mulheres de exercerem suas próprias vidas durante séculos! Alguém tinha que fazer o trabalho, não é?

Na mesma página, temos alguns objetivos, que eu destaco um: “Destacar a discriminação profissional contra os homens nas áreas de serviços sociais, nas atitudes e expectativas sociais e no direito”. Coitados, não? Não consigo aceitar o argumento, a não ser se for para refletir sobre o que eles fazem com as mulheres. Um tipo de “sentiu na pele, né?”.

No Brasil Escola, eu li:

O artigo 1° da Declaração Universal de Direitos Humanos relata:
“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”
O Dia do Homem tem igual importância ao Dia da Mulher, pois ambos têm o seu espaço na sociedade e buscam objetivos semelhantes como a promoção da vida, o bem-estar da família, o cuidado com o meio ambiente e a busca pela saúde física e mental.

Bem, já discordei da necessidade dessa data principalmente no que diz respeito ao gênero, mas aqui ainda existem outros argumentos, como a promoção da VIDA, BEM-ESTAR da FAMÍLIA, SAÚDE FÍSICA E MENTAL. Se pensarmos que os conceitos em caixa alta já são elaborados por homens, é lógico pensar que tais conceitos os confortam bem. É tudo uma construção de homem, feita de homem para homem, e as minorias que se encaixem ou morram. Questão de gênero não é questão de saúde, de bem estar, de desmatamento. Tudo isso é questão social. Não é questão discriminatória dos pobres homens. Ser homem não tem nada a ver com reforçar esses aspectos, no meu ponto de vista.

Na machista G1, filhinha da Globo, tem uma matéria sobre o dia fatídico. Uma foto de uma família e a seguinte legenda: “Para a Professora Nayla Ferreira, no dia do homem, o homenageado tem que cumprir com seu papel de chefe de família (Foto: Marcos Dantas / G1 AM).” É isso, então. Ela não entendeu a razão pelo dia do homem porque ela pensa como um homem. E ela pensa assim porque foram os próprios homens que a ensinaram a pensar assim. Ela, professora, como dizem certos políticos, precisa ser bem casada, porque seu salário não dá para bancar o provedor da família. E a mulher? Não pode ser chefe?

Bom, esse assunto dá pano para manga. Eu vou parando por aqui. Eu sou homem, sou gay, sou maioria às vezes, e às vezes minoria. Não quero esse dia para mim. Eu passo, dispenso. Quem for homem de verdade e souber o que é ser homem de verdade fora da posição machista que comemore. Mas eu duvido que haja. O dia vai mesmo ser celebrado como qualquer domingo: um bando de machos jogando futebol e bebendo cerveja, enquanto as fêmeas cuidam das crias, da limpeza do ninho, da organização da toca. Somos animais, viva o dia do homem.

#Eike pobreza de espírito

Nos últimos tempos, tenho visto noticiado que a fortuna de Eike Batista reduziu consideravelmente de tamanho. No entanto, o cara continua bilionário. Uma pessoa que já teve 27 bilhões de dólares e agora possui apenas poucos bilhões não é um pobre. Bem, eu não conheço a história do empresário, nem sei quais são suas empresas. Leio sempre em manchetes que seu patrimônio está cada vez mais diminuindo e li agora que suas empresas devem 23 bilhões. E então dizem “Eike empobreceu”. Não existem pobres de 5 bilhões de dólares. Não sobraram ‘apenas’ 5 bilhões.
De qualquer forma, não estou nestas linhas para falar do afortunado sob infortúnios. Quero apenas registrar a reação que tenho visto das pessoas. Vejo muita gente feliz com o ‘empobrecimento’ de Eike como se fosse um trunfo, quase que uma vingança particular. Ora, estamos no sistema capitalista. Uns em cima e outros embaixo. Não tenho conhecimento de ninguém que ocupará ao seu trono que esteja ao meu redor, ou ao redor das pessoas que estão ao meu redor, ou ao redor das pessoas que estão ao redor das pessoas que estão ao meu redor, ou ao redor das pessoas que estão ao redor das pessoas... chega, né?
Mas porque celebrar a “pobreza” de Eike? Fazer humor com os fatos da vida é um traço do ser humano e, digamos, uma característica inerente ao brasileiro. É comum vermos tudo, eu disse TUDO virar piadinhas. Mas no fundo, eu vejo que essas piadinhas com o empobrecimento de Eike está cheio de um algo que eu não consigo imaginar o que é. Pessoas brincam na internet com situações típicas das classes menos favorecidas. Coisas que seriam normais, ou ainda que são vergonhosas, são colocadas na rotina do empresário para os internautas se divirtam. É engraçado? Ok, algumas podem ser. Mas porque tanta gente celebra isso? Quem, de fato, está ganhando com isso? Bem, na história com esse Eike aí, eu sei que tem um bom tanto de coisas que podem estar erradas com a política nacional. De qualquer forma, nem todos por aí politizados. Eu, por exemplo, sou muito pouco. Mas estou aí, lendo a tragédia alheia, e lendo o gozo alheio com a tragédia alheia.
Mas por que será que as pessoas se importam tanto? Vou ter que pesquisar muito para entender como o império eikiano chega até mim, como ele me influencia direta e indiretamente. Mas não acredito que eu chegaria ao ponto de me divertir construindo frases que colocam o Eike em situações de pobre. Fiquei pensando se é inveja. Sério mesmo. Será que não é inveja? Daquelas bem breguinhas de vilão de novela mexicana, do tipo “se eu não tenho, fico feliz que você não tenha”. Eu, que não tenho patrimônio algum, penso que se eu perder a mesma porcentagem que ele, eu sim estou lascado. Não ele. Eu e as pessoas ao meu redor, e as ao redor das que estão ao meu redor.

Bem, termino esse post com essas duas dúvidas centrais: o que significa de fato a pobreza de Eike Batista na minha vida, e por que as pessoas escarnam tanto essa situação? Será que só porque eu não entendo posso chamar aqueles que entendem de invejosos, ou a reação não é cabível mesmo? Não sei de nada. Sei da minha vida e dos meus problemas. E é neles que eu foco minha energia e minhas piadas.

domingo, 26 de maio de 2013

O alho e a cebola [que eu queria ser]



Eles estavam lá. Parados no mesmo lugar não sei precisar quanto tempo. Digamos que tempo o bastante para se entediarem com a condição deles de estáticos na cozinha perto do fogão. O calor dos momentos culinários os fizeram despertar de dentro de si uma vontade imensa de crescer. E assim fez-se o primeiro broto. A cebola já mostrava uma raminha verde que fazia parecer nela um cabelo natural. Sabor cebolinha. O alho, de uma das pontas, lançou ao ar também um singelo caule. Ambos ali, sem conversar um com o outro, tiveram a mesma ideia. Eles estavam plenos de vontade de crescer. De saltar da condição mórbida de serem tão simplesmente consumidos.
Vendo o desespero deles em querer chamar a atenção para a real necessidade de suas vidas, eu me compadeci. Primeiramente, como um bom ser humano, perguntei-me até que ponto aquele dente de alho, saltado de um sorriso alhado, e aquela cebola, pulsante de cabinhos de cebolinha, continham vida naquele corpo estático e cego. Quando vi que não chegaria a conclusão alguma, resolvi agir mesmo assim. O dente de alho, coloquei no vazinho de violeta, vizinhos que nem se falavam antes. Também, não se viam. A cebola, esta foi parar dentro de um copo com água.
E foi o que aconteceu o milagre da vida, que já havia naqueles corpinhos. O alho ganhou força que buscou na terrinha e jogou o mais alto que pôde seus caules de alho. Talvez fosse novo alho e se sentisse um pé de feijão mágico. Um pé de alho mágico, no mundo dos alhos. A cebola em seu copo de água começou a jogar por todos os lados da outra extremidade uns pezinhos de raiz. Se tivesse terra ali, provavelmente, ela também se estabeleceria como moradora fixa do copo. Em outro bairro, outro contexto, ainda na cidade da cozinha, fizeram uma comunidade muda. A violeta desflorada, o alho e a cebola. Não se sabia quem queria mais da vida.
De qualquer forma, eles cresceram tão prontamente, como se tivessem nascidos para isso apenas. Nem se lembram mais hoje em dia que virariam temperos, de tão distante que essa realidade ficou. E o que eu fiz para contribuir? Alimentei.

Depois de um tempo, fiquei pensando. O que tem esse dente de alho e essa cebola que eu não tenho? Por que eu não consigo fincar raízes e lançar ao alto meus ramos científicos? Esse alho e essa cebola eram minha inspiração cada vez que eu olhava para eles. Mas quando eu me via na força de fazer pulsar meus brotinhos, simplesmente eu não conseguia. Imagino minha orientadora tentando me alimentar de alguma forma, e eu me negando como uma criança mimada. Se eu fosse tão receptivo quanto o alho e a cebola que eu ajudei a vingar... mas não. Eu não era. Então, estou aqui nestas palavras tentando buscar dentro de mim uma porção heroica de alho e cebola. Não sei a energia específica para fazer nascer o primeiro brotinho, o primeiro pontinho de caule. Mas quando eu descobrir o segredo, quero ganhar os céus também. Eu posso, porque eu também tenho dentes e cabeça. Talvez eu esteja no bairro errado, deslocado, procurando um lugar de onde tirar os nutrientes que me faltam. Mas eu me mexo. E se mexer sem saber para qual direção ir é o mesmo que não se mexer. Igual aos dois, que sem poder se mexer, sempre souberam que direção tomar. Eu quero ser um alho. Eu quero ser uma cebola.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Droga da Intimidade


Muitos a chamam de droga. De fato, existe uma parte bizarra da intimidade que as pessoas rejeitam, em geral, que é quando ela se manifesta por meios mais escatológicos. Flatulências e arrotos a parte, a intimidade é algo de muito mais positivo que negativo.
Com a intimidade eu sei o que não só que o outro está à vontade comigo, mas eu também posso medir o quanto o outro me deixa à vontade ao seu lado. Estar em uma relação, seja de que natureza for, a convivência é necessária. Tendo isso, a intimidade é consequência. Estar à vontade para dividir não só as coisas boas ou ruins da vida, mas as minúcias do cotidiano.

Ao tratar dessa questão, sempre tenho a sensação de estar falando de ficar grudado a vida toda, fazer todas as coisas juntos, dividir cada e todo pensamento. Esse é o formato de relação que eu gosto, que eu estabeleço com os meus iguais, sejam eles amores, amigos, colegas, bichos, espíritos, loucuras e por aí vai.

De qualquer forma, é a intimidade que me mostra o quão eu posso ser aceito na rotina de outra pessoa. É a intimidade que me deixa ver que o outro me aceita, sem precisar concordar comigo, sem precisar melindrar para me dizer issos e aquilos. A intimidade serve para isso, para otimizar as relações. Ela é a ponte que faz os sentimentos mais íntimos migrarem de uma boca para a cabeça outra.

Intimidade, para mim, é algo que vicia. Acordar ao lado de alguém ver como ela fica descabelada logo cedo, ou como ela se comporta em seus ritos matinais. Saber o que a irrita, como acorda, como dorme, se sonha em voz alta, ou se cala na noite escura. Intimidade para confessar os desejos mais sórdidos, abrir-se e pensar a si próprio, repensar-se. A intimidade é algo que impregna nas relações e as deixam cheirosas, com gosto de vida vivida. Ela se faz sob os meus pés como ladrilhos de uma viela pela qual ainda estou passando. Olhando para o chão, eu vejo onde os passos são íntimos e onde não são. Piso sempre sobre a intimidade. Ela é um sustento para a alma.

Concluo, pois, reforçando o ditado popular: a intimidade é uma droga. Ela vicia, me deixa sempre querendo mais. Me deixa pensando nela durante o dia, me deixa sentindo sua presença ou sua ausência à noite. Minhas manhãs não são diferentes com ou sem alguém. Elas mudam sim, com a presença/ausência das pessoas ao meu redor, mas elas mexem na minha dinâmica, apenas. Não me seguram, não me impedem. Elas me impulsionam. Eu sou viciado em intimidades. E cá para nós, eu sou íntimo de muita gente por aí. Cada uma dessas intimidades me dá uma relação diferente. A intimidade é o meu termômetro de bem-estar. Eu, que fujo de gente desconhecida sempre, uso esse artefato das relações como um termômetro de bem-estar. Estou bem se estou íntimo. Se estou distante, eu não estou nem mais eu. Portanto, não estou nem mais aí. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Espelho mágico


O professor pedira aos alunos que escrevessem um texto. Deu-lhes todas as condições necessárias. Trabalhou com eles o tema central da produção e levou textos que os auxiliariam a pensar sobre o assunto. E lá se foram para casa o aluno e a sua tarefa: a escrita.
Sentado em seu quarto, com o computador ligado, ele olhava para a tela branca de seu editor de textos. Sim, um aluno modernizado, que desconhece o poder do papel. O fato é que estava ali, a tela branca, e à luz que se tinha no ambiente, ele podia ver-se naquele papel metamorfoseado em tela. Ele via seu próprio reflexo. E o seu reflexo também o via.
Foi assustador à primeira vista entender que quanto para mais dentro dos próprios olhos ele olhava, mais ele se via. Estava espantado de ver-se tão nitidamente no reflexo daquela tela. Ele era ele e se reconhecera ali. Não tinha como ser outro, se não o próprio.
Decidiu brincar com a imagem. Como não gostava de escrever, colocou-se um jogo para motivá-lo. Escreveria até que as manchas pretas em forma de letrinhas cobrissem a sensação que tinha de se olhar. Assim, acreditava que iria se sentir menos exposto, protegendo sua ignorância acruada em sua própria vista com um escudo de letrinhas vazadas.
Escreveu sobre o tema aquilo que julgou o que devesse ser escrito. Leu, releu e surpreendeu-se em reler o texto. Não se espantava com o que produzira, mas com a própria ação de reler o que tinha posto na tela. Nunca fazia isso. Mal olhava-se no espelho, quem dirá reler seu próprio texto.
O fato é que todo manchado de curvilíneas e retilíneas apretejadas em seu écran, ele deu por concluída a árdua missão da escrita. Agradeceu ao corretor ortográfico e encaminhou sua obra ao e-mail do professor. Achou que com tudo que tinha escrito esconderia sua verdadeira face, a de desinteressado. Fez o que lhe pediram e ele cumpriu, afinal, era disso que viva a vida escolar.
O professor, por sua vez, ao receber o texto de seu aluno, abriu de pronto e colocou-se a ler, preparado para fazer notas sobre o que leria nas próximas linhas. Primeiro passou os olhos por cada palavra, por cada expressão. Leu os olhos do rapaz, entreabertos, divididos entre a atenção e o despero, entre o sono e a vigília. Leu também os lindos traços do rosto jovem, desejento de cama e de festa. Leu ainda nos cantos dos lábios que um beijo estava escondido ali. Estava tudo escrito. Aquilo era um porta-retrato de seu aluno. O professor nunca havia visto aquele rapaz dessa maneira. Dali para frente, tudo seria diferente entre os dois.
Quando o texto voltou ao e-mail do aluno, já era outro retrato. Quando abriu o arquivo, o aluno espantou-se ao ver nas notas do professor um suposto filho seu. Era pai com o professor de um filho que ambos geraram. Era a cara do menino, mas tinha traços do professor. Eram agora criadores da mesma criação. Eram deuses de mãos dadas. O professor vibrava quando olhava para seu espelho mágico em forma de texto e via nele o rostinho de seu aluno. O aluno não ligou.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A paz que deus (não) me deu.


Quem sabe dizer do que se faz o coração? De fibras musculares que fazem pulsar o sangue por todo o corpo? Não é do coração físico, mas do sentimento. Onde esses dois se encontram? Esses dois corações que batem em meu peito? Por que os dois devem bater no peito? Quem decidiu que o coração emoção moraria no peito foi o próprio coração razão. Seria esse um sinal que a razão está sobre a emoção e não o contrário? Sim a resposta é essa. E eu odeio conhecer a razão, dominar a razão, e a emoção ao deusdará. Que deus, o quê. E o que ele dará? Ele tem me dado desgosto só. Tem orientado seu povo na terra contra o amor. Tem orientado o povo na terra a favor dos formatos quadrados, retilíneos, straghts. Eu odeio esse deus. Esse cara que existe na cabeça das pessoas e que diz que ama todos mas que vai me mandar para o Inferno. Eu já estou no inferno, cara. Eu já conheço o calor que faz por aqui. Logo o calor, mais confortável que o frio. Um deus de amor que vive de obstáculos. Um deus platônico, cujo amor é inatingível. Eu me sinto um romântico olhando para esse deus. Por isso escolho meus próprios ídolos. Não adoro ovelhas de ouro, deus sim. Não em formato de ovelhas. Em formato de ouro. Não é de hoje, é de séculos. Eu não acredito no cristianismo. Eu não acredito no formato que ele deu às emoções do ser humano. Eu não acredito no pecado, porque eu não sei dizer o que é certo e o que é errado. Eu mentiria se dissesse que a bondade é o caminho, porque o que eu sei da bondade foi esse mesmo deus quem me ensinou. Eu não confio nele. Essa é a minha profissão de fé. Eu desconfio dele. Eu odeio ter que negar a letra maiúscula cada vez que escreve o substantivo que se refere a ele. Ele. É onde sua letra maísculua cabe. No incício de frase. Eu faria um d bem grande, em formato de minúsculo bem na fuça da frase para mostrar meu descontamento. deus, me deixe em paz, a dita que você tanto quer pregar entre nós. Eu não acredito nos seus propósitos. Você é uma invenção humana, assim como eu, como o amor que late no meu peito. Como o coração que pulsa fora e dentro da minha razão. Eu amo o amor, mesmo sem saber direito quem ELE é. E se não o sei, a culpa é somente Sua, ó deus dos desmisericordiosos. deus dos seres não odiosos. Eu sou odioso, eu sou detestável. Eu sou meu próprio deus, à imagem e semelhança do que eu penso ser sacro para mim. Eu não me conheço, meus sentimentos vivem num poço sem fim. Esses meus sentimentos que muitos anos deus atormentou dizendo que eu não deveria. Ainda existe a ultima hora para o arrependimento. Ainda existe? Eu já não sei se eu quero me arrepender. Eu quero mesmo é mergulhar nessa lama, pois a terra e a água é igual a vida. A vida que esse mesmo deus me nega viver. Meus corações não batem em compasso. Eu não sei a distância do peito até a cabeça. Eu não sei o que o peito e a cabeça fazem juntos. Deus, me liberte de ti, eu te emploro. Deixa-me ser livre. Não me conte das dez regrinhas que você criou. Deixe que eu crie as minhas. Deixe que eu viva por mim e não por você. Deixa eu fazer meu bezerro de ouro, feito de escárnio e mal dizer. Deixa-me ser livre de verdade. Deixa-me o poder do livre arbítrio. Pare com essa farsa de Inês Pereira. Eis a hora derradeira. Se você me ama de verdade, deixa-me viver na sociedade que eu (não) escolhi. Eu (não) sou mais eu. Deixa-me daqui pra frente ser o meu próprio (Des)deus. 

terça-feira, 23 de abril de 2013

Sentidos para o ar


Quando passou o ar, que em si, era diferente

Meus sentidos se cegaram

O breve toque, seu hiato,

O cheiro, alheio, no inverso vácuo

O gosto na minha boca inventado

Só real como a vista

Fogo etéreo, desejo artista,

Ártico filosofista

E como ar que era, em si próprio se desfez

O tato, o olfato, o palato,

O seco, vácuo.

A visão, a audição,

Ah... ilusória desejada sensação


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Marley e Ele


Marley e Ele

Para Evely Libanori


O homem, feliz, ou bêbado, ou drogado, ou doente mental. Mal vestido, falando bem mole. Mochila nas costas, calça jeans surrada e camiseta de propaganda de algo, já um tanto desbotada. Ele fala com um Cão. E está feliz. Muito. O diferente ainda é como ele fala com o Cão. Ele não se posiciona como dono do Cão, mas como Amigo. Ele dizia – num chora, heim, Amigo! Que que foi?! Num quero ninguém choran perdimim, heim? Pó tratá di ficá feliz!
O Cachorro, mais surrado que o homem, declaradamente de rua, não parecia querer ser pertencido. Apenas era Amigo do homem. Ele, de pelagem negra, suja de areia de uma minúscula faixa de menos de 5 metros de praia na Avenida Beira-Mar. Ele parecia contar algo ao seu Amigo de outra espécie, o humano. Parecia contar um algo bem interessante. Coisas que fazemos entre Amigos. E seu Amigo humano fazia vistas de que entendia tudo e também replicava à altura dos rosnados explicativos. A cena era linda de se olhar. O mar no fundo brilhava dando a sensação que só era aquilo mesmo, na vastidão do oceano, a se observar. Era, ali, a única coisa que importava, para os dois. Um ao outro.
Que que foi? Tá cum fome?  - O bípede, que só tinha sua condição humana a oferecer, assim o fez com gosto e afinco. Virou ele todo a boca do Cachorro Amigo. Assim, começou a abordar os transeuntes – Dá uma moeda, pu favô, seu sinhô, minha senhora, minina, moço.  Assim, tendo juntado um tanto, meteu a mão no bolso de sua calça e de lá tirou como um tesouro uns dinheiros que nos seus olhos brilhavam como um pote de ouro no fim do arco-íris. Seu sorriso me contava que ele tinha o que faltava do dinheiro. E assim, ele e seu Amigo Cão partiram.
Algum tempo depois, voltam os Amigos, uma mais faceiro que o outro. O bípede, de tão contente e feliz que estava até me contagiou, e teria contagiado mais pessoas se as poucas que estavam ao redor prestassem atenção além de si mesmas, na sala de jantar, preocupadas em nascer e morrer. O Cão, então, esboçava contentamento que se derramava por onde passava. As pessoas notavam os dois, mas olhavam diretamente só para o Cão. O bípede não lhes merecia a atenção, pensavam, acho. E ele lá, com a boca aberta num sorriso largo, com a linguona para fora babando feliz, com saltos altos e com o rabo que parecia abanar o Cachorro com muito mais força que tinha o próprio dono!
- Ó que a gente tem!!  - disse gabando-se com uma sacola plástica em uma das mãos. Era a compra com a vaquinha coletiva. Então, levantou a sacola e tirou de dentro um saco de comida. Mas só para o Amigo. Um saco de ração. Ele falava a quem tivesse ouvidos – Rai cumê, rapaizi. Rai lá e enche esse bucho magro”. O Amigo não necessariamente magro, nem parecia esfomeado. Parecia mais um homem independente sentado no quiosque da praia, com seu Amigo humano, dividindo calma e educadamente uma bela porção de cores, sabores, cheiros e tudo mais sortidos.
Tão irradiante estavam, só faltou a música. Então, sacou o o celular do bolso da calça e logo colocou um funk que gemia “desliza, desliza, desliza no quiabo!”. Ele não dançava. Apenas olhava contente seu Amigo comer tranquilamente a ração. O Cão era de rua, e era nobre. Comeu com calma, aproveitando mais a companhia do que o prato. Eles eram Amigos. E de súbito, o homem virou-se para mim e disse: agora é a MINHA vez. E depois sorriu novamente.  Sorriu um sorriso banguela, amarelo esculro e preto. Um sorriso barroco – entre o sublime e o grotesco. Um sorriso sincero, de alma. Pegou no quiosque uma cerveja que pagara com o restante do dinheiro da ração.
Ele estava feliz de ver bem seu Amigo e o fato de viver com as sobras não lhe parecia grave. Senti lendo nos olhos dele um “É o bastante para nós dois, pelo menos por hoje.” Ele, o Cão. Ele, o Humano. Eles. Amigos do peito.
            ‘

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Pânico


Era como se tudo tivesse começado de novo. Os medos estavam ali, no lado de fora da noite, esperando para segurar na minha mão durante o passeio. Mas eu tinha que ser bravo, ser valente. Enfrentar e vencer. Fui andando com a cachorrinha por todo o percurso do cotidiano pensando no que tinha acontecido logo na saída. Passei pela esquina dos primeiros cheiros e nem me dera conta do tempo que ela levava para vasculhar com o nariz cada cheirinho daqueles cantos.
                
Os primeiros passos rumo fora do portão foram assistidos por um cidadão, que parou o carro na frente da entrada do estacionamento do condomínio, como se fosse esperar alguém, mas de dentro do carro, via-se somente ele. E ele parecia somente ver a mim e à cachorra. E ela, na paciência e no tempo que demanda uma boa checagem olfativa, longamente cheirou as plantinhas ali da saída. E ele continuou a me olhar. Então, nunca mais olhei de volta. Só no último instante, antes de finalmente terminar de virar a esquina é que olhei de novo e brevemente eu vi. Ele ainda estava lá. Só que agora, fora do carro, em pé. Virado para a esquina. Como se esperasse alguém enquanto olha para a esquina, ou como se esperasse alguém que viesse da esquina.
                
De qualquer forma, a insistência do olhar foi algo que acabou ficando na minha cabeça. No começo, eu não tinha entendido o que tinha acontecido. Mas, parando para pensar, comecei a entender que na verdade eu poderia ser a pessoa que ele estava procurando. E no que vi em seu olhar, suas intenções não eram as melhores. Pronto. Era isso, um pau mandado atrás de mim. Mas quem teria feito isso? Quem me odiaria a esse ponto? Muito bem, sei dos nomes dessa lista, mas nenhum deles o faria naquele instante. Aquilo era indecifrável, para mim. Meus olhos não conseguiam enxergar nada de amedrontado que eu estava.
                
A cachorrinha continuou seu passeio alheia à minha condição. Ela simplesmente cheirava, cheirava e cheirava. Andava rápido, devagar, fazia xixi e cocô, que eu fiz questão de recolher e descarta-lo no lixo, adequadamente.  Mas naquela noite, eu só pensava. O percurso do passeio é sempre o mesmo há tempos. O horário do passeio também. Então, eu tinha entendido que tinha me tornado uma presa fácil. Era mesmo muito fácil me pegar se quiser, porque eu sou extremamente previsível, graças ao um habito de ser metódico por fora para poder ser bagunçado por dentro.  Mas o que eu estava pensando? Não era momento de análise, mas de verificar se existia mesmo sinal de perigo. Era domingo à noite e o movimento na rua era parco. Continuei com a minha valentia o percurso até o fim. Até virar a última esquina, a do outro lado do quarteirão. E para minha surpresa, lá estava para eu refletir.
                
Eu estava no começo da esquina. Se eu contasse a distância do portão do estacionamento até a esquina, eu poderia mencionar a distância de dois contêineres de lixo, dois caminhões estacionados e também de um carro. O mesmo carro. Aquele que tinha parado na frente do portão quando eu saí, agora estava atrás do segundo caminhão. O espaço entre a esquina e o carro, entre mim e o cara, era a areia que corria na minha ampulheta. A cada passo que eu dava eu tinha que pensar em tudo o que estava acontecendo e mensurar tudo. Minha sorte era ter a cachorrinha, que nesse pedaço do trajeto, como se ela estivesse cansada, anda bem devagar. Em dias normais, eu venço esse trajetinho incentivando-a e chamando-a para que ela acelere. Mas naquele domingo foi diferente. Ela teve toda a liberdade do mundo para ver e cheirar cada tudo que ela quisesse.
                
Enquanto isso, eu via o homem me ver levar a cachorra para o passeio. Ele andava meio impaciente, de um lado para o outro. E eu na calçada. E ele na rua e na calçada, na rua e na calçada. Aquilo não fazia sentido para mim. Porque ele ficaria nervoso agora? Não deve ser um profissional, ou está com medo, com a adrenalina correndo na veia para prepara-lo para o ataque. Quando eu andei mais um pouco, e vi que entraria num corredor formado por uma parede de uma quadra de um lado e dois caminhões e dois contêineres do outro. Aquele corredor escuro e cheio de cheiros para a cachorra demorar-se a eternidade tornaram-se um beco, um lugar para agir, um lugar por onde eu não deveria passar, não se quisesse viver, ou seja lá o que fosse. Para completar a minha tensão, a porta do passageiro do carro abre levemente e fica entreaberta.

Porque a porta não abriu totalmente? Por que a pessoa não saiu? Minha mão suava muito frio e meu estômago estava gélido, como se eu tivesse sido perfurado pela ponta de um iceberg. Penei isso enquanto meus passos automaticamente me levaram para a rua, tentando fugir da emboscada. Mas o homem parecia ter ficado mais furioso ainda. Ele mostrava muita impaciência. Mas ele esperou que eu passasse até a metade do segundo caminhão para tomar a primeira atitude e eu ter a primeira reação. Ele entrou no carro e ligou. Deu a partida, saiu rápido de onde estava. Pensei que pudesse ter uma arma e não precisasse mais do que uns milésimos de segundo para acabar com a minha raça. Claro que era isso. Porque mais estaria tão nervoso?

Enquanto, não sabia se corria, não sabia se ficava. Não sabia se olhava para trás, não sabia se abraçava a cachorra. Não sabia nada. E quando o carro de fato ficou na minha mira minha pele perdeu a cor e eu vi sentado no banco do lado a morte... não. Era uma mulher de preto. Uma mulher que sorria inocentemente ao lado do homem que agora parecia satisfeito de ir embora. E eles nem ligaram para mim. Agradecido de não ter reagido em nenhum instante fisicamente, voltei atravessando a rua aos poucos , recuperando as forças nas pernas. Era só uma crise. Só. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Autodigestão da escrita


O momento da escrita é sagrado. Temos que ter uma coisa dentro de nós, que em geral jorra de tão abundante, mas que na vida prática não aprendemos a empregar muito bem essa coisa. Chama-se vontade. Sem ela você não dá um passo. Com ela, mas sem saber como usar seria o mesmo que andar para trás.

Eu tenho vontades de escrever. Vontade de escrever coisas diferentes. O meu problema é que eu acabo querendo escrever muitas coisas ao mesmo tempo, o que não é uma tarefa das mais possíveis. Então, no fim de um ou dois parágrafos, eu já me sinto cansado de escrever sem rumo e apago tudo. Pronto, minha escrita foi para o poço do esquecimento.

Ideias nascem e morrem. Mas algumas delas vivem para sempre. Bem diferente dos meus textos abortados, esses morreram antes mesmo de viver. Nem sentiram o gosto da vida que é ter um interlocutor. Olha como cheguei longe. Agora mesmo me passou pela cabeça que eu tenho outras coisas para fazer, ou que eu posso fazer outras coisas. A vontade passou. Mas vou insistir até o fim desse parágrafo. Até completar a próxima ideia.

Depois que a vontade some, a gente fica num tipo de limbo branco, olhando para o espaço na frente, pensando no tudo que foi escrito e desperdiçado. A cada linha que escrevo, aumento meu prazer, e aumento a minha dó. Mas não me inspiro a continuar. Depois que a vontade acaba, o assunto vai caindo, caindo. Até que você não tem ou não quer mais falar. E então, o texto desfalece de uma vez por todas. Assim como este aqui, que jaz na certeza do fim de seu último ponto final.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Brumas da manhã de inverno em Maringá


O sol não se arriscou muito no céu pelo dia. Logo pela manhã, no silêncio humano do fim da madrugada, os insetos noturnos já retornavam de sua longa jornada noturna. Era preciso ir embora antes do aviso dos pássaros. O ar naquela manhã estava bem úmido. Fazia um pouco de frio também. Tudo prometia um inverno bem úmido. Os insetos noturnos se recolheram à medida em que foram substituídos pelos insetos diurnos naquele cenário. E a manhã apenas começando.
Um sopro de tempo se deu naquele instante, e o Sol, ainda oculto pela massa de nuvens no céu, não se manifestou com nem mesmo uma faísca amarela. Estranhamente naquela manhã algo de diferente no clima chegou. Uma neblina invadiu a cidade dos bichos e dos homens e começou a ocultar cada pessoa, cada ser. A neblina seguiu tornando-se densa. Uma densidade alienante. Não se via nada. Não se ouvia também um piu. Parecia que tudo e todos estavam assistindo atentos àquela cena de suspense individual e coletivo.
As brumas tinham mesmo esse poder nas histórias antigas, contadas entre os bichos ainda hoje em dia. Já os homens apenas recontam histórias inventadas no cinema. E as brumas lá, pegando a todos de surpresa.  Um filhotinho de pássaro no seu ninho olhava atônito para sua mamãe pássaro. Pela janela de uma das casas, um par de olhinhos esgueiravam-se rumo ao nada, bem pertinho dele, ao silêncio envolvente das brumas. Os grilos, de pernas caladas, e as pétalas de rosa estavam encharcados de um doce orvalho que cobria de bolhas toda e qualquer superfície que as brumas tocassem.
Aquele momento fora como um chamado individual. Aqueles que apenas temeram e esperaram respeitosamente a situação mudar viveram em paz. Os outros, que aderiram à densa energia vital que corria naquela bruma, esses sim viram que existe alguma coisa além, um quê distante da humanice, um algo a ser descoberto no meio da fumaça. E em troca, a bruma também se alimentou naquele instante dessa conexão com os seres da terra. Essa troca de energias intensificou ainda mais as brumas, causando mais temor e respeito nos que não estabeleciam nada.
De tão intensa que a troca ficou, a bruma se liquefez e virou uma garoa fina fininha. E essa garoa era tão leve que ao sobro da mais suave brisa elas desenhavam no espaço formas caleidoscópicas de padrões inimagináveis. Repararam algumas ratazanas que acompanhavam os primeiros humanos ao trabalho que não era a brisa que movia os padrões de gotículas, mas a energia que elas trocavam quando se entregavam à bruma. Isso mexeu novamente com todos. Desde os que ficaram mais fasncinados pelo evento, os que passaram a respeitar mais ainda, e os que nem perceberam o que acontecia mas tiveram pelo menos que se projeger daquilo que já tinha se tornado uma chuva fina. E a bruma se desfazia à medida em que a chuvinha ia ganhando mais corpo e forma.
Era manhã, o aviso dos pássaros começara a ser dado. Muita alegria, muita cantoria. As pernas dos grilos até se raspavam sem querer de vez em quando ao dançarem sem perceber. Um adulto acordava com esse som enquanto outro se cobria para tentar abafá-lo. A diversidade na vida e no coração estava ali também, exposto, graças à bruma, que agora era uma chuva forte com ventos que ameaçavam os ninhos das aves que se protegiam de seus predadores.
Estava inaugurada a manhã. A partir daquele instante tudo estaria diferente para sempre. Uma bruma dessas não se passa assim por aqui sempre. Era preciso comemorar. A chuva foi passando devagar também. Até que parou de vez e uma família de brisas levou parte das nuvens para longe. O sol, agora, jogava seus primeiros raios do dia em cima das folhas molhadas de suor das árvores. O ar ficara leve e uma onda de bom humor invadia a cidade. E aos poucos, o azul do céu foi se mostrando dentre as nuvens que não passavam de massas rarefeitas de um cinza claro. Um azul esfumaçado brilhou intensamente sob os raios do vigor do sol.
O aviso dos pássaros dado, e tudo no seu devido lugar. A vida estava inaugurada de novo, naquela manhã de inverno.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Violência homofobia e religião


Pois então, eis que os gays apanham na rua. E esses dias eu estava pensando sobre ética, sobre religião. Essa última está para o bem maior, que é a ideia que se molda ao conceito de deus. Para nós, wiccanos, esse bem maior explica a Deusa em sua eterna dança com o Deus. Para os cristãos, não existe a deusa. Nem dança nenhuma. Depois do novo testamento, esse deus foi concebido como um deus da bondade. Mas no antigo, ele representava melhor um plano arquetípico do humano. O que fica agora é o balde de contradições.

Pois então, eis que os gays apanham na rua.  Ética wiccana: não prejudicar o próximo. Se não prejudicar nada nem ninguém, o resto você pode tudo. Ética cristã: Amar a deus sobre todas as coisas. O cristianismo coloca o foco do amor em deus. Ele deve ser amado em primeira instância. De resto, o que o cidadão fizer aqui na Terra, ele pode ser perdoado no último instante. Existe uma abertura muito grande para a maldade. O deus cristão é muito vaidoso, e joga o primeiro mandamento para ele. Amar ao próximo como se fosse a ti mesmo não tem peso nenhum socialmente. Amar ao próximo é sempre só para os que têm divino dom do amor. Porque amar mesmo e cuidar, não vejo. E os gays apanhando na rua.

O cristianismo, por vezes, acaba por colocar uma situação muito delicada para a sociedade. Principalmente os evangélicos, muitos pastores vêm pregando infernos e maldições para os gays. Querendo ou não, fica registrado aqui também o repudio ao outro.  Na wicca, uma das coisas que aprendi é que as escolhas dos outros são feitas pelos outros, por quem teve o direito de fazê-las. Principalmente se isso não tem nada a ver com a pessoa. É o caso da frase “não precisa aceitar. Mas respeitar é obrigação”. O wiccano aprende a respeitar o outro em sua totalidade, e não tentar salvá-lo das chamas do inferno. Na lei wiccana, a Wiccan Rede, existem reinterpretações como a Lei Tríplice: "tudo o que você faz volta para você". E isso é durante a propria vida. Não será na incerteza do obscuro destino após a morte.

Quando um wiccano bate em outra pessoa, ele faz isso com consciência de que está ferindo o princípio ético da wicca. Quando um cristão bate, ele não respeita a segunda lei divina dele, mas também não se preocupa porque no final ele poderá se arrepender e se entender com deus apenas. Então, pode seguir seu curso ferino.

Quando eu repenso os valores que aprendi através da bruxaria, eu fico me perguntando se nós não deveríamos ter medo dos cristãos...