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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Máscara no chão, eu segui meu caminho sem olhar para trás

Eu estava lá, esperando minha carona no fim da noite do meu trabalho. Para facilitar, eu espero na esquina, o que evita de fazer o percurso de carro por mais 4 quarteirões, dada a disposição das mãos das ruas e o trajeto até meu destino. Estava lá eu cansado e com o dinheiro na carteira para pagar meu terapeuta. Eu, a noite, os arbustos, todos silenciosos naquela esquina sem movimento algum. Mas não temia, porque não era a primeira que eu ficara ali e nunca nada de diferente acontecera nas vezes anteriores. Então, depois de um dia de folga de crises de ansiedade, eu esperava com a sensação de bem-estar e de autocontrole. Tudo estava indo bem.
 
Foi então que vi se aproximando uma figura. Um rapaz aparentemente mais novo do que eu. De calças jeans, camiseta e boné. Sua pele, entre o moreno e o mulato. Tinha o olhar cansado e um pouco perdido, e também vasos que pulsavam em seus glóbulos, fazendo de sua aparição uma ponta de início dos meus medos. Tive medo de ser assaltado. Nem me questionei se fosse pela cor de sua pele, pelo jeito que ele dispunha seus pés em seus passos perdidos, lentos como que com cuidado, ou perdidos, como que sem rumo. Olhava para os lados. Não sabia dizer o motivo, mas em minha cabeça ele procurava por testemunhas que preferia evitar e cometer seu delito de modo mais tranquilo.
 
Aproximou-se de mim e pediu um dinheiro. Tinha o ar triste e queria comer alguma coisa e beber um algo também. Pediu-me gentilmente, com um palavreado de gírias que passaram desconhecidas por minha limitada experiência social. Tinha medo de não dar um dinheiro e despertar nele sua ira, que o impulsionaria ao roubo. Tinha medo de dar o dinheiro e ser roubado quando pusesse a carteira à vista. Tinha pena de vê-lo tão desorientado. Abri a carteira e dei-lhe uma moeda, assim poupava de mostrar dentro dela algumas notas, já destinadas ao terapeuta.
 
Como que por gratidão, o rapaz desembestou a contar sua história para mim. Vinha do Paraná, coincidentemente de uma cidade perto de Maringá, de onde eu vinha também. Então, ficou estabelecido o primeiro traço de identificação. Cantei prontamente essa pedra, achando que pudesse ser um bom argumento para ele não me roubar. Mas no fundo mesmo, não parecia ameaçador, não fosse todo o contexto em que tudo se deu. Disse que viera há duas semanas com a namorada e que a dita o pusera para fora, restando-lhe apenas vagar pelas ruas dia e noite. Procurou a polícia, o conselho tutelar, isso e aquilo, para tentar conseguir o dinheiro da passagem de volta para sua terra natal. Tentativas todas frustradas. Restava-lhe mesmo vagar aqui e acolá. Chegou mesmo a me perguntar, depois de descrevê-la, se eu tinha visto sua ex andando pelas redondezas.
 
Foi quando ouvi atrás de mim uns outros passos. Minha mente advertiu: emboscada! Estava perdido naquele momento. Mergulhado no medo, não sabia como reagir. O segundo elemento era um quase negro, vestindo xortes e camiseta. Tinha consigo um pano, tão surrado quanto suas roupas. Esse claramente estava na rua há mais tempo que o primeiro. E estava ali, logo atrás de mim, aproximando-se. Não podia conter meu medo. Logo, desvirei e comecei a olhar para ambos, ora um, ora outro, até que o segundo chegou e nos cumprimentou. Pensei: se conhecem. É uma emboscada, certamente. E o segundo começou a conversar conosco como se quem não quisesse nada. Cumprimentou, perguntou como vamos, apertou nossas mãos e se pôs a conversar. E no meio da conversa, que eu não conseguia acompanhar muito bem dado o pânico que estava sentindo, ele contou sua história também. Aparentemente desinteressado, o primeiro disse que iria se sentar, que estava cansado. Como eu me reposicionara para não perder nem um nem outro de vista, acabei ficando de costas para a rua, e o primeiro foi bem na direção que eu não poderia avistá-lo. Disfarçando meu medo, virei-me e fiquei novamente com o olho pregado nos dois. Éramos ali nós três: dois que moravam na rua, um há mais tempo que o outro, e eu, que tinha ondes morar e comida quentinha em casa, me esperando.
 
O segundo perguntou meu nome, e eu respondi. Ele também dissera o seu: Charles. Contou-me que vinha de uma cidade do paraná. Usei a mesma estratégia para desmotivar o crime. Eu estava petrificado de medo. Depois que Charles contou sua história, e que eu fiquei demonstrando interesse, fazendo mil e uma perguntas para ganhar tempo de minha carona chegar, o primeiro levantou-se e veio em nossa direção. É agora, pensei. Chegou o momento. Não sabia como reagir, nem mesmo conseguia mais manter a aparência tranquila. Eu estava transtornado e estava visível nos meus olhos. Presa fácil, que não saberia nem para que lado correr. O rapaz reveio e disse que iria na praça, perto do trailer de lanches, ver se descolava mais algum para comer alguma coisa. Charles, mais que prontamente, enfiou a mão no bolso e disse: cara, eu não tenho muito para ajudar. Estava guardando para juntar e tomar uma pinga, mas tô vendo que hoje não vai rolar. Tirou do bolso uma moeda de vinte e cinco centavos que entregou na mão do outro rapaz. O rapaz mais solidário do que eu. Pelo menos mil vezes mais. Senti-me um lixo. Humilhado. Horrível, mas o medo lá, ainda presente em cada poro do meu corpo.
 
Partido o primeiro para a praça, Charles me contou que tinha um cachorro e que não era fácil conseguir comida pra ele e para o amigo animal. Entre médio e pequeno, de cor amarelada, ele disse que Amarelo era sua fiel companhia, e que mesmo sendo difícil ele se mantinha com o cão, porque um cuidava do outro, e nas noites mais frias, um também aquecia o outro. Investiguei o quanto pude a história do morador de rua com o seu cão, até que a carona chegou. Carro estacionado, motorista olhando tudo e achando estranho, eu me despedi e parti para ocupar meu lugar de copiloto, deixando Charles que nem tinha para onde ir plantado ali naquela esquina vazia. Ele me pediu um dinheiro também, pois que também tinha fome e sede. Abri a carteira, dei a ele uma moeda de um real também. Não tinha mais moedas, apenas notas destinadas ao terapeuta, que se eu pensasse bem, poderia ter dado uns dez reais ao rapaz que não me fariam falta ao ponto de me prejudicar. E o rapaz com fome.
 
Entrei no carro e partimos. Charles para trás, e eu transtornado de medo, fiquei ali naquele banco de carro recapitulando as duas histórias que acabara de ouvir. Eu sofro de ansiedade, e tenho todo o respaldo necessário para me tratar. Senti a injustiça social que eles sofriam e senti também que agora eu era parte dessa sociedade que os discriminava. Ninguém me assaltou.
 
Talvez o primeiro tivesse me assaltado se o segundo não tivesse aparecido. Talvez Charles apareça somente para me proteger, porque viu a atitude suspeita. Talvez os dois só quisessem ajuda e nunca pensaram em me assaltar naquela esquina. De qualquer forma, ainda que por estratégia de distração, dei a eles um pouco de atenção e ouvi suas tristes histórias. E eu os julgara durante os longos 12 minutos que passei na companhia deles. Quem era eu ao lado de Charles, que nem para si tinha e ainda ajudou o primeiro?, que cuida de um cachorro de rua?, que veio ali e, ainda que não fosse sua intenção, protegeu-me?, que tudo isso e eu, mesquinho, ali parado tremendo de cima da minha empáfia favorecida.
 
Existe muito lixo nas ruas da cidade. Mas naquela noite, eu vi também que existe muito lixo dentro das casas, bem confortáveis, com comida quentinha. É assim que eu me senti depois da experiência. Um lixo e nada mais. Uma única experiência mostrou que meu discurso de esquerda, de favorecimento dos pobres, de não ao preconceito e à exclusão social, de amar a tudo e a todos, tudo ali foi para o esgoto naquela noite. Eu não me sentia mais nada daquilo. Apenas descobri o lixo humano que eu era. Lixo com dinheiro no bolso e coração de pedra de medo e de falta de compaixão.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Efeitos das medicações


Quando estou medicado, tudo ao redor vai perdendo os tons das cores. As mais vivas vão ficando opacas. As boas notícias vão ganhando um gosto de indiferença. Tudo o que eu preciso nesse momento é botar para fora um choro que fica escondido na garganta da alma. Mas os remédios se transformam cada vez mais numa barreira intransponível.
Ontem, tive uma proposta de emprego que me pareceu bem razoável. Um bom plano. Uma sensação de que pelo menos metade das razões das minhas angústias estaria resolvido. Depois da entrevista, das notícias, eu fiquei ali, extasiado?! Não, fiquei feliz. Mas uma felicidade um pouco mais distante, impessoal. Era como saber que alguém que eu não conheço conseguiu algo que precisava muito. Não parecia ter relação comigo.
Talvez seja esse o ponto. Medicado, eu não me conheço. Dizem-me nem notar diferença. Isso me assusta um pouco. EU me sinto diferente. Eu me sinto neutralizado, neutro. Eu não me sinto eu. Sorrio menos, abraço menos, beijo menos, desejo menos. A combinação bombástica de rivotril e exodum me deixam assim. Eu fico com ânsia de vômito no papel de reações adversas. Mas fico ali. Neutro.  Se eu tivesse uma estante no meu quarto, tenho certeza de que seria um lindo bibliocanto. Eu adoraria escorar meus livros. Eles não têm falado comigo da maneira necessária. Mas eu os escoraria, para mantê-los bem em pé.
Nessa sociedade somos tão objetificados tantas vezes que querer ser um objeto talvez seja parte. Ainda não quero com tanta força ser neutro. Ontem foi o primeiro dia de combinação desses medicamentos. Uma hora, no período da noite, um deles começou a perder o efeito. E aí eu ri, sorri, quase até que gargalhei. Ouvi músicas, cantei, dancei. Mas passou. No lugar da quase euforia vem o nó na garganta outra vez. Êta nó que não desata.
Agora, estou aqui, novamente medicado. Vendo tudo pender para os tons de preto e branco. A comida já não me atrai, a bebida não me diz nada, os amigos, fico feliz de tê-los por perto, mas não tenho mais força para busca-los. Aquela companhia que parecia ser indispensável, de repente, tornou-se uma visita distante, uma visita rápida.
Quando eu parar com as medicações [sim, porque eu pretendo parar], tudo vai voltar ao normal, aos poucos. E eu espero conseguir recuperar um pouco desse eu que eu gosto e prefiro.  Mas por agora, eu sei que lá no fundo tem um de mim que quer chorar. Mas não chora. As lágrimas foram secas com lenços de exodum.
Para quem busca entender os efeitos desse medicamento, fica aqui a dica: é o ensaio da morte. O sono é pesado e sem fim. Não se sonha. Não se fantasia. Dorme-se e fim. Ponto final. Um ponto final que dura até o dia seguinte. Cada dia mais, cada remedinho mais, o lindo nascer do sol se torna tão comum que a sensação de ver cada manhã um espetáculo se torna mais maçante que ver um filme longo e chato por repetidas vezes no mesmo dia.  Estou começando a entrar de novo na parte do tratamento que parece que vivo dez mil vezes o mesmo dia. Mas isso também vai me ajudar a ficar calmo para estudar. Ah, pelo menos isso. A médica disse que nesses momentos eu devo buscar fazer o que me agrada, o que me deixa feliz.
O que me agrada... o que me deixa feliz...  humpf. Não quero mais pensar nisso.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Crises de ansiedade, fascículo mil


Tudo na vida tem o seu preço. Negligenciar o tratamento de transtornos de ansiedade também está neste pacote. Como fere uma crise. Como perder o controle de si é ruim. Mas as coisas parece que nunca se formam na minha cabeça como uma base de aprendizagem. A ansiedade não me deixa ver que é ela que está por trás de pequenas oscilações de humor durante o dia. E quando a coisa estoura, pronto. Já é tarde de mais.
Já venho dizendo há alguns dias para mim mesmo que estou sentindo uma leve ansiedade, uma inquietude que fica dentro do meu corpo, que vira uma vontade estranha nos pés de caminhar sem rumo. Mas no sábado eu me segurei. Durante o almoço com pessoas de bem, tudo parecia sob controle. Tudo mesmo. Nada parecia tocar aquela sensação gostosa da paz que é de estar entre gente querida. Mas não.
De repente, depois de termos comigo, no tal do cigarrinho de depois, eu passei a sentir um quê de incômodo, mas não sabia dizer exatamente o quê. A coisa foi toando formato e de súbito lá estavam minhas mãos esfriando e meu estômago querendo se desfazer daquela refeição tão bem preparada, gostinho de amor. A ansiedade aumentando e eu acreditando que era a pressão caindo. Talvez fossem os dois juntos, de mãos dadas, moldando o meu eu que surgiria nos dois dias seguintes. O desconforto do estômago e a tontura, a tremedeira, o frio por dentro do corpo, tudo estava lá, germinando. E eu apostando na pressão. Mas acabei por entender que era que estava ficando ansioso.
Rivotrilei um sublingual e esperei, deitadinho no chão, no quietinho, esperei a espera para o efeito começar. E começou. O jardim voltou a ficar verde, as plantas e as flores voltaram a brilhar naquele jardim que me assistia sucumbir sem mesmo que eu soubesse o que acontecia. Não sei pontualmente o quê, claro, mas algo estava fora do lugar. Talvez fosse só minha paz de espírito, que foi se alongar por aí, para lá de mim.
O dia terminou de passar lindo. Cuidamos do jardim, cuidamos das plantas e a noite cuidou de nós. A lua enluarou toda a cena e enfeitou com seu ar prateado nosso triunfo sob o espaço verde. Que lugar gostoso aquele.
No dia seguinte, eu, crente que era fortão, passei o domingo de manhã na companhia das mesmas alegrias do dia anterior. Mas foi chegando mais gente, e mais e mais. E eu lá, acreditando na força que eu não tenho, mas que naquele momento eu tive. Eu me comportei. Muitas risadas e muitas conversas. Partes leves e pesadas dos que partilhavam daquelas xícaras de café de amizade respingavam na minha alma. Ora me faziam rir, ora me faziam pensar em mim próprio, nas minhas ações. A história do castelo de areia, daquele que não saiu da planta. A planta que não saia da cabeça de sua arquiteta. A relação unilateral fadada ao fim. E lá estava eu, de plateia. Parecia que eram pessoas contanto minha própria história, espalhada em diversas bocas. Mas ouvi tudo e calei. Quando oportuno, opinei. Às vezes, eu só queria sair, ir embora, partir. Mas por quê?, eu me questionava. Estava tão bom ali? Minha adrenalina brincando nos meus pés não entendiam nada disso.
Domingo à noite terminou na rua, com bar e mais gente. Na mesa, aqueles de antes, mas em volta, mais gente ainda. Eu estava lá, claramente me convencendo que eu era forte. Escondi até de mim mesmo o desconforto social. Ansiei e até mesmo tive momentos de querer levantar e partir. Mas fiquei, eu era forte, pensei. E fui. Fiquei até o fim. Até que todos juntos se levantaram e seguiram seus rumos. E eu segui o meu, que não era bem o meu, mas era um rumo que mantinha bom compasso no meu coração. Ahh, coração, coração. Batendo ora forte, ora fraco, ora lento, ora rápido. Mas sempre batia. Eu estava vivo e tudo isso faz parte da vida.
Segunda-feira, dia do terror. Logo pela manhã, acordei com um grito preso na garganta, um grito que eu abafei e impedi de sair. Gritei para dentro de mim. Era o que tinha que ser feito. Soltei pequenas pílulas de estresse e descontentamento, percebido de leve por aqueles que estavam do meu lado. Mas nada de alarmismos. Eu nem mesmo sequer comentara dos riscos que eu mesmo sofria. Acreditei, com a força da minha ingenuidade, que tudo passaria jajá. Mas não passou. Foi crescendo. Briguei pelas pequenas coisas da vida, pelos pequenos planos do dia. Chutei a porta dos estabelecimentos que precisava ir. Não sorri para ninguém. Não tinha sorrisos guardados naquele dia.
Então, de volta para casa, achei que estava seguro, protegido. Consciente de que eu precisava mesmo era relaxar, preparei para mim mesmo uma bela de uma caipirinha. Desceu gostosa pela garganta. Pareceu ter mesmo lavado os gritos sufocados que eu escondi. Uma, duas, três. Até que os planos mudaram. Bem acompanhado, fui a um bar, bem típico, onde ficássemos à vontade. O mesmo bar do domingo. Lá, comemos, bebemos. Rimos e fomos felizes. Mas não, algo era crescente em mim. Bastou a gota d’água para fazer tudo ir pelos ares. Não importa qual gota tenha sido essa, já estava tudo voando para todos os lados. Meu olhar perdido, não focava, procurava um certo conforto que não estava naquele lugar. Fomos até a casa de uma amiga. Lá, mais gente desconhecida. Era para eu ter me sentido acolhido, porque fizeram de tudo para que fosse assim.
Tentei impedir. Tentei escapar dali. Consegui. Corri, mas não sabia para onde eu ia. Cheguei em casa, mas não durei muito tempo. Saí de novo. Andei andei andei e fiz tudo o que eu podia para me arrepender pelo resto amargo do dia da terça. O feriado que minha paz tirou para descansar de mim. Nesse episódio maluco, 5 doses do sublingual rivotril nem fizeram cócegas em mim. Tiraram-me o olhar de loucura. Não me trouxeram nem um pouco de doçura. Saí às 3h40 para caminhar. Caminhei por uma hora, e na hora seguinte foi a vez da minha razão sair por aí.
Eu tenho sorte ainda assim de ter boas companhias. Não gosto de envolver as pessoas nas minhas crises de ansiedade, de pânico. Mas não consegui evitar. Quando vi, estava feito. E agora estou aqui, juntando os meus próprios cacos. Está certo e claro, eu não sou forte, sou fraco. Vou retomar meus remédios depois da aula tensa de amanhã.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A crise matinal do dia D


Depois de ter feito a leitura dos pontos principais que eu já tinha pronto, depois de reler um livro todo num dia [nunca consegui fazer isso], depois de ler coisas novas, depois de conversar e descontrair com os alberguistas aqui em Floripa, acordei, há mais ou menos 2 horas, com a adrenalina chegando na goela. A sensação foi crescendo e eu tive que me controlar e procurar o remédio sem acordar nenhum dos 7 alberguistas que dividiam o quarto comigo, e eu com eles. Mas o meu coração não estava nem um pouco divido. Ele estava tomado de uma vontade louca de nem mesmo sei o quê.

Corri tranquilamente em direção ao shorts. O remédio estaria ali, esperando por mim. Mas estava? Não. Serviu para aumentar minha tensão. Meu desespero que aos poucos eu sentia vazar pelos olhos. Movimentos frenéticos da minha mão se enfiaram na mochila atrás de outra cartela. Procurar a começada a essa altura do campeonato é balela. Tomei. Esperei. Diminuiu, mas não passou. Em 15 minutos tomo o café da manhã. Não sei mesmo o que fazer. Estou conturbado e não quero deixar as poucas horas de sono mal dormido atrapalharem meu desempenho na prova. Não estou necessariamente preparado para ela com a lista de livros X, mas tenho alguns conhecimentos que certamente vão me permitir ter as minhas 4 respostas.

O remédio tira a concentração e deixa a pessoa esquecida, disse a médica arregalando os olhos por detrás das lentes dos óculos, que já faziam o papel de arregalamento causando o mesmo efeito ainda que ela não quisesse. São os olhos gigantescos, pupilas dilatas, que eu vejo no espelho. Quando olho para o centro dos olhos, eu a vejo, fazendo ressalvas. Não sei ainda bem o que fazer. Tomei meio remédio, sublingual. E agora, exatamente agora, eu respirei aliviado. Acho que foi a escrita que ajudou a me tranquilizar. Acho que vou tomar café da manhã e tomar a outra parte do remédio. E depois vou deixar que ele faça efeito, comigo na cama, com a Mussalim e com a Bentes. Mais improvável. Mais improviso. Mais sufoco, mais alívio. Mais hora, menos hora, chega a minha vez.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Pânico


Era como se tudo tivesse começado de novo. Os medos estavam ali, no lado de fora da noite, esperando para segurar na minha mão durante o passeio. Mas eu tinha que ser bravo, ser valente. Enfrentar e vencer. Fui andando com a cachorrinha por todo o percurso do cotidiano pensando no que tinha acontecido logo na saída. Passei pela esquina dos primeiros cheiros e nem me dera conta do tempo que ela levava para vasculhar com o nariz cada cheirinho daqueles cantos.
                
Os primeiros passos rumo fora do portão foram assistidos por um cidadão, que parou o carro na frente da entrada do estacionamento do condomínio, como se fosse esperar alguém, mas de dentro do carro, via-se somente ele. E ele parecia somente ver a mim e à cachorra. E ela, na paciência e no tempo que demanda uma boa checagem olfativa, longamente cheirou as plantinhas ali da saída. E ele continuou a me olhar. Então, nunca mais olhei de volta. Só no último instante, antes de finalmente terminar de virar a esquina é que olhei de novo e brevemente eu vi. Ele ainda estava lá. Só que agora, fora do carro, em pé. Virado para a esquina. Como se esperasse alguém enquanto olha para a esquina, ou como se esperasse alguém que viesse da esquina.
                
De qualquer forma, a insistência do olhar foi algo que acabou ficando na minha cabeça. No começo, eu não tinha entendido o que tinha acontecido. Mas, parando para pensar, comecei a entender que na verdade eu poderia ser a pessoa que ele estava procurando. E no que vi em seu olhar, suas intenções não eram as melhores. Pronto. Era isso, um pau mandado atrás de mim. Mas quem teria feito isso? Quem me odiaria a esse ponto? Muito bem, sei dos nomes dessa lista, mas nenhum deles o faria naquele instante. Aquilo era indecifrável, para mim. Meus olhos não conseguiam enxergar nada de amedrontado que eu estava.
                
A cachorrinha continuou seu passeio alheia à minha condição. Ela simplesmente cheirava, cheirava e cheirava. Andava rápido, devagar, fazia xixi e cocô, que eu fiz questão de recolher e descarta-lo no lixo, adequadamente.  Mas naquela noite, eu só pensava. O percurso do passeio é sempre o mesmo há tempos. O horário do passeio também. Então, eu tinha entendido que tinha me tornado uma presa fácil. Era mesmo muito fácil me pegar se quiser, porque eu sou extremamente previsível, graças ao um habito de ser metódico por fora para poder ser bagunçado por dentro.  Mas o que eu estava pensando? Não era momento de análise, mas de verificar se existia mesmo sinal de perigo. Era domingo à noite e o movimento na rua era parco. Continuei com a minha valentia o percurso até o fim. Até virar a última esquina, a do outro lado do quarteirão. E para minha surpresa, lá estava para eu refletir.
                
Eu estava no começo da esquina. Se eu contasse a distância do portão do estacionamento até a esquina, eu poderia mencionar a distância de dois contêineres de lixo, dois caminhões estacionados e também de um carro. O mesmo carro. Aquele que tinha parado na frente do portão quando eu saí, agora estava atrás do segundo caminhão. O espaço entre a esquina e o carro, entre mim e o cara, era a areia que corria na minha ampulheta. A cada passo que eu dava eu tinha que pensar em tudo o que estava acontecendo e mensurar tudo. Minha sorte era ter a cachorrinha, que nesse pedaço do trajeto, como se ela estivesse cansada, anda bem devagar. Em dias normais, eu venço esse trajetinho incentivando-a e chamando-a para que ela acelere. Mas naquele domingo foi diferente. Ela teve toda a liberdade do mundo para ver e cheirar cada tudo que ela quisesse.
                
Enquanto isso, eu via o homem me ver levar a cachorra para o passeio. Ele andava meio impaciente, de um lado para o outro. E eu na calçada. E ele na rua e na calçada, na rua e na calçada. Aquilo não fazia sentido para mim. Porque ele ficaria nervoso agora? Não deve ser um profissional, ou está com medo, com a adrenalina correndo na veia para prepara-lo para o ataque. Quando eu andei mais um pouco, e vi que entraria num corredor formado por uma parede de uma quadra de um lado e dois caminhões e dois contêineres do outro. Aquele corredor escuro e cheio de cheiros para a cachorra demorar-se a eternidade tornaram-se um beco, um lugar para agir, um lugar por onde eu não deveria passar, não se quisesse viver, ou seja lá o que fosse. Para completar a minha tensão, a porta do passageiro do carro abre levemente e fica entreaberta.

Porque a porta não abriu totalmente? Por que a pessoa não saiu? Minha mão suava muito frio e meu estômago estava gélido, como se eu tivesse sido perfurado pela ponta de um iceberg. Penei isso enquanto meus passos automaticamente me levaram para a rua, tentando fugir da emboscada. Mas o homem parecia ter ficado mais furioso ainda. Ele mostrava muita impaciência. Mas ele esperou que eu passasse até a metade do segundo caminhão para tomar a primeira atitude e eu ter a primeira reação. Ele entrou no carro e ligou. Deu a partida, saiu rápido de onde estava. Pensei que pudesse ter uma arma e não precisasse mais do que uns milésimos de segundo para acabar com a minha raça. Claro que era isso. Porque mais estaria tão nervoso?

Enquanto, não sabia se corria, não sabia se ficava. Não sabia se olhava para trás, não sabia se abraçava a cachorra. Não sabia nada. E quando o carro de fato ficou na minha mira minha pele perdeu a cor e eu vi sentado no banco do lado a morte... não. Era uma mulher de preto. Uma mulher que sorria inocentemente ao lado do homem que agora parecia satisfeito de ir embora. E eles nem ligaram para mim. Agradecido de não ter reagido em nenhum instante fisicamente, voltei atravessando a rua aos poucos , recuperando as forças nas pernas. Era só uma crise. Só. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Vagando sem direção

A pressão é leve e sutil. As palavras vão dissolvendo dentro da minha consciência, e sinto como se peristalticamente minhas vontades fossem mudadas em prol do outro. Escapo por entre as brechas sobressaltadas entre o que eu quero e o que posso. Mas perdido assim, dentro de mim, o que posso querer além de saber o que posso? Um sonho lúcido, desses em que a lógica é um mero detalhe, desses que quando falta nem falta faz. Um clima de perseguição e de contradição. Não me sinto contradito dentro de mim, mas meus ouvidos distorcem cada sussurro. Ah, se eu fosse dono do tempo, faria parar e arrumaria minha casa. Arrumaria minha vida e talvez mais um emprego. Arrumaria dinheiro e pagaria as contas do mundo. Faria um banquete para quem tem fome, um piscinete para quem tem sede. No instante seguinte, todos contentos como num passe de mágica. Mas a mágica que me muda de um segundo para o outro nunca me trata com a mesma generosidade. É espessa a sensação do engolir sapos. É a pílula da libertação. É o suicida que não se mata com medo do pecado, mas que vive só esperando tudo acabar. E eu?, pergunto-me para mim mesmo. Onde foi parar meu juízo, minha lógica ou minha razão? Nas caixas do comprimido. Na ponta do lápis dos médicos. Eu vago, e vago e vago e vago... vou longe e distante, mas nunca volto, posto que nem mesmo sei de onde parti. Quem dirá para onde vou, de onde vim. Por que sou, então, a utopia do auto-saber, desse sonho abdiquei, vou tocando a vida, ou sendo tocado por ela. Vou oscilando, no ritmo das ondas dessa maré que nem me leva nem me deixa. É fim do ano. A virada está próxima. Tomara que essa coisa vire, que a moeda com cara me mostre a sua coroa. E que a coroa me traga sua majestade riqueza.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Day 2, step 2

De alguma forma, saber que o que estava sentindo era a tal da síndrome do pânnico, ou o transtorno do pânico fez com que eu mesclasse algumas sensações das crises que eu tive aos 15 anos. A doutora disse que essses sintomas que eu descrevi para ela na minha adolescência eram de agorofobia e não do transtorno em si, todos eles associados aos meus picos de ansiedade. Neste momento, manhã do dia 24 de novembro de 2011, por volta das 9h30 da manhã, o que eu sinto é muito simples, uma leve ansiedade deixada pelo fim das cinco gotas de rivotril que eu tomei ontem à noite, estou terminando um café da manhã com uma fatia de pão e requeijão, uma porção de aveia com leite e mais algo que não consigo me lembrar o que comi. Logo, jajá, eu vou tomar a segunda dose do exodus. Minha noite foi tranquila. Devo ter sonhado, mas não me lembro. Acordei um pouco antes das 8h. De repente acordei de novo e eram nove e pouco. Não me lembro muito bem do que aconteceu, se eu levantei e bebi água e deitei de novo. Não sei. Bom, quero falar sobre o primeiro dia. Depois de ter tomado os remédios certinho, eu tinha que ir fazer a ficha catalográfica da minha dissertação na biblioteca da faculdade e também tinha que fazer uma impressão da ultima versão da dissertação para isso. Antes, ainda, eu tinha uma consulta marcada com o otorrinolaringologista (doravante otorrino.. rsrs). Eu, louco, fui de moto, mas não tenho outra opção. Acreditei no rivotril sublingual no bolso e fui para a rua. Depois de um tempo de trânsito, comecei a me sentir um pouco mal, uma tontura, uma raiva e uma vontade de chorar. Cheguei meio transtornado no consultório. Então, pensei que pudesse ser a hora do primeiro rivotril contra o ataque de pânico. Mas e o medo de me sedar e ainda ter todo o transito para voltar? Mas e essa angústia e tontura que eu estava sentindo? Coloquei meio comprimido em baixo da língua e duvidei que fosse funcionar, duvidei que fosse derreter. Gente, eu tinha certeza de que tudo isso era balela e que não resolveria meus sintomas. Foi quando, nem me dei conta quando, mas a pastilha meio arenosa começou a esfarelar na língua. Acho mesmo que o remédio começou a fazer efeito na hora de ir embora. Nem consegui falar direito com o médico. Ele examinou minha boca, ouvidos e nariz, fez algumas perguntas, deu alguns sorrisos tranqüilizadores e mediu minha pressão. Eu poderia jurar que estava alta. Mas não estava. A ansiedade me enganava, então. Eu não poderia confiar nem nas minhas próprias sensações. Na saída, ele pediu exames para mim, de sangue e um que eu não consegui ler a letra, mas que será dentro da orelha, para saber sobre a sensação de estar com o ouvido entupido [tomara que não seja sujeira, já pensou que vergonha??] [simulação] - E então Dr. O que eu tenho? - Porquice. Aprenda a tomar banho direito. Vou te receitar essa caixa de cotonetes. Bom, depois, de volta ao transito, de volta ao pânico, de leve, mas ainda existente. Cheguei em casa e dormi um bom tanto. Depois, fui fazer a impressão da dissertação e levar na biblioteca da universidade para fazer a ficha catalográfica. Durante esses processo todo, tive mini crises de ansiedade mas nada que me tirasse da jogada. O problema é o sono que eu venho sentindo por conta da medicação. Estou tomando uma dose menor do que a recomendada de rivotril. Eu sinto minha ansiedade presa nos meus pés, como era antes de ela se espalhar por todo o meu descontrole. Falar do assunto me estressa um pouco, mas é um meio de eu organizar a realidade para mim mesmo através da escrita, uma vez que eu não posso ainda pagar por uma psicoterapia. A psicanálise não é ciência, então eu também queria aproveitar para usar outras não tão ciências, como terapias holísticas. Quero ser terapeuta holístico. Bom, previsão do dia de hoje é mandar as impressões da dissertação conforme manda a lista de indicações que recebi do programa de pós graduação. Vou terminar de comer minha aveia, e tomar meu exodus e esperar começar a fazer efeito. Qual a sensação de efeito? Que a realidade é destacável. Parece que eu não preciso da realidade, ela é indiferente. Mas na hora do almoço tudo passa...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Day 1, Step 1

Mas que maneira mais chata de reativar o blog. Comecei a escrever por conta do processo de mestrado pelo qual passei nesses últimos dois anos e meio. Um período em que cresci muito mas também adoeci um pouco por conta da ansiedade. O objetivo sempre foi nunca deixar de postar. Mas tudo bem, eu vou continuar postando agora, mais frenquentemente, espero. Bom , a novidade é que agora estou com o diagnóstico de transtorno do pânico [de novo]. É certo que eu tive na primeira vez aos 14 ou 15 anos, e consegui tomar conta de mim sozinho. Desta vez, tive que cair nas garras da medicação de tarja preta. Será temporário, porque meu caso não está tão grave assim, mas mesmo assim é algo que me mexe com minhas neuras. DAY 1: 5 gotas de rivotril antes de dormir. Antes de tomar, senti aquela sensação de medo, de entrar num brinquedo de parque que vai fazer minha cabeça rodar. Não gosto de brinquedos de parque. Gosto do parque em si, do clima e das pessoas felizes, mas eu mesmo andar nos brinquedos não gosto. Talvez eu veja a vida meio assim também. Adoro estar vivo e viver essa vida maluca que hora nos põe para cima e hora para baixo. Mas essa brincadeira de rivotril me deu uma sensação mais plástica de paz. Uma paz forjada. Espero que isso me ajude mesmo a relaxar, porque eu não consigui sentir as coisas com a minha lógica. Minhas sensações ficaram meio que adormecidas. Uma paz artificial. Dormi a noite toda como uma pedra. Como foi complicado para mim a noite de domingo para terça. Aliás, todo o domingo foi meio tenso. 3 hospitais num dia para mim é mais do que o suficiente para me jogar na cara que eu não estava bem. Não agora, agora estou neutro, amortecido. Perdido entre o sono e a vigília. Acho que na verdade mais a vigília do que o sono, mas o meu pensamento não se agrega aos fatos da vida. No HU, o segundo hospital que eu fui, ajudou muito a intensificar meus sintomas. Depois de ter sido largado num corredor cheio de gente internada nas cadeiras pelo corredor de atendimento médico, por falta de leitos, fui algumas vezes tratado bem rispidamente pelas enfermeiras que estavam no plantão noturno. Eram umas 2h e pouco da manhã quando me dei conta que esperava num corredor escuro, cheio de gente gemendo de dor, por um médico cuja a fila não existia sem, no entanto, anular a minha ‘necessidade de espera’. 30 minutos depois dessa angustia, tentei pular a janela, tentei arrombar a porta de saída. Disse a uma delas: vocês deveriam ter umas aulas de psicologia. Deveriam ir pelo menos para a igreja para relembrar que as pessoas que vocês cuidam são seres humanos, apavorados, com medo por estarem doentes. “Eu não posso fazer nada”, ela dizia neutra. “Minha pressão ta subindo, vai me dar um negocio” Mede para mim só pra eu ver que é coisa da minha cabeça e me acalmar [eu sabia que poderia ser uma sensação apenas, mesmo tendo pico de pressão há um mês quando da defesa]. Exodus: o segundo remédio do tratamento, a primeira dose do segundo remédio. Eu me sinto eu mesmo, mas um pouco mais desapegado com as coisas do cotidiano. Antes de começar o tratamento ontem, senti medo, pensei em tantas coisas sobre a minha vida e sobre o que passar para um tratamento medicamentoso significava para mim nessa vida de poucos anos que vivi até agora.O segundo remédio acho que deve servir para me devolver o eixo. Só sinto um pouco de tisteza por precisar dele. A sensação da ansiedade, essa parece que recuou um pouco. Agora, minhas sensações de adrenalina voltaram para os pés. É lá que eu sinto primeiro a ansiedade. É como se eu estive descendo na montanha russa e a adrenalina vem subindo pelas pernas. Sinto nos pés de novo. Considero um bom sinal. Mas não me sinto eu mesmo. Talvez o lance seja eu tirar férias de mim mesmo. Por isso tenho que ficar afastado do trabalho. Para ver se eu consigo sobreviver longe de mim, não sendo eu mesmo. Mais pra frente o médico vai me permitir ser eu mesmo, eu espero. Mas quem sou eu, ou quem eu penso que sou? Tenho medo de que esse seja um novo eu. Enquanto descanso de mim mesmo, farei coisas que nunca faço: exames médicos de diversas naturezas. Ainda tenho que verificar alguns sintomas de gastrite, labirintite, diabetes, se meu intestino é normal ou se essa preguiça dele ainda poderá me prejudicar. Ai, vida. Que saudade quando tudo era simples e eu mesmo tinha força de enfrentar meus medos.