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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Máscara no chão, eu segui meu caminho sem olhar para trás

Eu estava lá, esperando minha carona no fim da noite do meu trabalho. Para facilitar, eu espero na esquina, o que evita de fazer o percurso de carro por mais 4 quarteirões, dada a disposição das mãos das ruas e o trajeto até meu destino. Estava lá eu cansado e com o dinheiro na carteira para pagar meu terapeuta. Eu, a noite, os arbustos, todos silenciosos naquela esquina sem movimento algum. Mas não temia, porque não era a primeira que eu ficara ali e nunca nada de diferente acontecera nas vezes anteriores. Então, depois de um dia de folga de crises de ansiedade, eu esperava com a sensação de bem-estar e de autocontrole. Tudo estava indo bem.
 
Foi então que vi se aproximando uma figura. Um rapaz aparentemente mais novo do que eu. De calças jeans, camiseta e boné. Sua pele, entre o moreno e o mulato. Tinha o olhar cansado e um pouco perdido, e também vasos que pulsavam em seus glóbulos, fazendo de sua aparição uma ponta de início dos meus medos. Tive medo de ser assaltado. Nem me questionei se fosse pela cor de sua pele, pelo jeito que ele dispunha seus pés em seus passos perdidos, lentos como que com cuidado, ou perdidos, como que sem rumo. Olhava para os lados. Não sabia dizer o motivo, mas em minha cabeça ele procurava por testemunhas que preferia evitar e cometer seu delito de modo mais tranquilo.
 
Aproximou-se de mim e pediu um dinheiro. Tinha o ar triste e queria comer alguma coisa e beber um algo também. Pediu-me gentilmente, com um palavreado de gírias que passaram desconhecidas por minha limitada experiência social. Tinha medo de não dar um dinheiro e despertar nele sua ira, que o impulsionaria ao roubo. Tinha medo de dar o dinheiro e ser roubado quando pusesse a carteira à vista. Tinha pena de vê-lo tão desorientado. Abri a carteira e dei-lhe uma moeda, assim poupava de mostrar dentro dela algumas notas, já destinadas ao terapeuta.
 
Como que por gratidão, o rapaz desembestou a contar sua história para mim. Vinha do Paraná, coincidentemente de uma cidade perto de Maringá, de onde eu vinha também. Então, ficou estabelecido o primeiro traço de identificação. Cantei prontamente essa pedra, achando que pudesse ser um bom argumento para ele não me roubar. Mas no fundo mesmo, não parecia ameaçador, não fosse todo o contexto em que tudo se deu. Disse que viera há duas semanas com a namorada e que a dita o pusera para fora, restando-lhe apenas vagar pelas ruas dia e noite. Procurou a polícia, o conselho tutelar, isso e aquilo, para tentar conseguir o dinheiro da passagem de volta para sua terra natal. Tentativas todas frustradas. Restava-lhe mesmo vagar aqui e acolá. Chegou mesmo a me perguntar, depois de descrevê-la, se eu tinha visto sua ex andando pelas redondezas.
 
Foi quando ouvi atrás de mim uns outros passos. Minha mente advertiu: emboscada! Estava perdido naquele momento. Mergulhado no medo, não sabia como reagir. O segundo elemento era um quase negro, vestindo xortes e camiseta. Tinha consigo um pano, tão surrado quanto suas roupas. Esse claramente estava na rua há mais tempo que o primeiro. E estava ali, logo atrás de mim, aproximando-se. Não podia conter meu medo. Logo, desvirei e comecei a olhar para ambos, ora um, ora outro, até que o segundo chegou e nos cumprimentou. Pensei: se conhecem. É uma emboscada, certamente. E o segundo começou a conversar conosco como se quem não quisesse nada. Cumprimentou, perguntou como vamos, apertou nossas mãos e se pôs a conversar. E no meio da conversa, que eu não conseguia acompanhar muito bem dado o pânico que estava sentindo, ele contou sua história também. Aparentemente desinteressado, o primeiro disse que iria se sentar, que estava cansado. Como eu me reposicionara para não perder nem um nem outro de vista, acabei ficando de costas para a rua, e o primeiro foi bem na direção que eu não poderia avistá-lo. Disfarçando meu medo, virei-me e fiquei novamente com o olho pregado nos dois. Éramos ali nós três: dois que moravam na rua, um há mais tempo que o outro, e eu, que tinha ondes morar e comida quentinha em casa, me esperando.
 
O segundo perguntou meu nome, e eu respondi. Ele também dissera o seu: Charles. Contou-me que vinha de uma cidade do paraná. Usei a mesma estratégia para desmotivar o crime. Eu estava petrificado de medo. Depois que Charles contou sua história, e que eu fiquei demonstrando interesse, fazendo mil e uma perguntas para ganhar tempo de minha carona chegar, o primeiro levantou-se e veio em nossa direção. É agora, pensei. Chegou o momento. Não sabia como reagir, nem mesmo conseguia mais manter a aparência tranquila. Eu estava transtornado e estava visível nos meus olhos. Presa fácil, que não saberia nem para que lado correr. O rapaz reveio e disse que iria na praça, perto do trailer de lanches, ver se descolava mais algum para comer alguma coisa. Charles, mais que prontamente, enfiou a mão no bolso e disse: cara, eu não tenho muito para ajudar. Estava guardando para juntar e tomar uma pinga, mas tô vendo que hoje não vai rolar. Tirou do bolso uma moeda de vinte e cinco centavos que entregou na mão do outro rapaz. O rapaz mais solidário do que eu. Pelo menos mil vezes mais. Senti-me um lixo. Humilhado. Horrível, mas o medo lá, ainda presente em cada poro do meu corpo.
 
Partido o primeiro para a praça, Charles me contou que tinha um cachorro e que não era fácil conseguir comida pra ele e para o amigo animal. Entre médio e pequeno, de cor amarelada, ele disse que Amarelo era sua fiel companhia, e que mesmo sendo difícil ele se mantinha com o cão, porque um cuidava do outro, e nas noites mais frias, um também aquecia o outro. Investiguei o quanto pude a história do morador de rua com o seu cão, até que a carona chegou. Carro estacionado, motorista olhando tudo e achando estranho, eu me despedi e parti para ocupar meu lugar de copiloto, deixando Charles que nem tinha para onde ir plantado ali naquela esquina vazia. Ele me pediu um dinheiro também, pois que também tinha fome e sede. Abri a carteira, dei a ele uma moeda de um real também. Não tinha mais moedas, apenas notas destinadas ao terapeuta, que se eu pensasse bem, poderia ter dado uns dez reais ao rapaz que não me fariam falta ao ponto de me prejudicar. E o rapaz com fome.
 
Entrei no carro e partimos. Charles para trás, e eu transtornado de medo, fiquei ali naquele banco de carro recapitulando as duas histórias que acabara de ouvir. Eu sofro de ansiedade, e tenho todo o respaldo necessário para me tratar. Senti a injustiça social que eles sofriam e senti também que agora eu era parte dessa sociedade que os discriminava. Ninguém me assaltou.
 
Talvez o primeiro tivesse me assaltado se o segundo não tivesse aparecido. Talvez Charles apareça somente para me proteger, porque viu a atitude suspeita. Talvez os dois só quisessem ajuda e nunca pensaram em me assaltar naquela esquina. De qualquer forma, ainda que por estratégia de distração, dei a eles um pouco de atenção e ouvi suas tristes histórias. E eu os julgara durante os longos 12 minutos que passei na companhia deles. Quem era eu ao lado de Charles, que nem para si tinha e ainda ajudou o primeiro?, que cuida de um cachorro de rua?, que veio ali e, ainda que não fosse sua intenção, protegeu-me?, que tudo isso e eu, mesquinho, ali parado tremendo de cima da minha empáfia favorecida.
 
Existe muito lixo nas ruas da cidade. Mas naquela noite, eu vi também que existe muito lixo dentro das casas, bem confortáveis, com comida quentinha. É assim que eu me senti depois da experiência. Um lixo e nada mais. Uma única experiência mostrou que meu discurso de esquerda, de favorecimento dos pobres, de não ao preconceito e à exclusão social, de amar a tudo e a todos, tudo ali foi para o esgoto naquela noite. Eu não me sentia mais nada daquilo. Apenas descobri o lixo humano que eu era. Lixo com dinheiro no bolso e coração de pedra de medo e de falta de compaixão.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Quando tudo está bem, o que se torna difícil?


Quando as coisas vão bem, o que se torna difícil? Hoje, um professor meu fez uma brincadeira comigo, dizendo que eu vivo em crises. Disse que sim, que era normal de mim. Mas quem não vive em crises?, pensei depois? Ele, será? Bem, depois de sua provocação, ele em si não importa mais. Importa tudo o que restou na minha mente inquieta. Preciso de dinheiro, preciso de emprego, preciso de boas ideias para desenvolver meus projetos e minha pesquisa do doutorado. Vendo que já estou a caminho de todos esses objetivos, sobram poucas crises para administrar. Assim, sobra fôlego e intervalo entre elas para desenvolver esses passos que me faltam dar até chegar a esses objetivos... mas a pergunta ficou na minha cabeça: por que eu vivo tanto em crise? Nem sei mesmo se é essa a minha natureza. Acho que nem é. Eu sou conhecido por mim mesmo como alguém que leva a vida numa boa, como alguém que ama viver e estar vivo. Confesso que tenho tido tempo e disposição para aproveitar um pouco a vida, mas também tenho me dedicado duro na missão de me tornar um alguém válido socialmente o mais rápido possível. Mas o relógio não funciona ao nosso desejo, nem se dá conta das nossas vontades. A espera é uma das partes da vida que menos gosto. E esperar por alguém que não chega parece se tornar um pouco da minha sina. Isso só porque eu é que fico esperando. É ninguém mais do que a minha própria pessoa que cria a sensação de espera. A expectativa. Todos nós vivemos melhor sem ela. Eu, que odeio expectativas, estou aqui, cheio delas, sem saber onde enfiá-las. E eis a minha mais nova crise. Sorte minha eu me amar o bastante para ter forças para deixar tudo isso para lá. Quando as palavras que eu escrevo vão se materializando na frente dos meus olhos, eu sinto como se eu mesmo tirasse de mim um espinho que me atordoa. Eu sou a minha própria cura. Nada de remédios por hoje, e que esse hoje dure o mais longo dos tempos. Tanta patifaria de ansiedade, tanto alvoroço, depois tanta morbidez com tanta medicação, e no fim, estou eu aqui de novo, sendo ninguém mais que eu mesmo, um alguém em plena crise. Crise que eu posso abdicar, mas não quero. E o professor lá, com aqueles olhos azuis me falando: você está em crise. Tudo em volta daqueles faróis vão se apagando e seu rosto vai se modificando, transfigurando. Os olhos são a janela da alma. A minha não tem janela. Tem uma porta bem larga, um buraco bem fundo. Um vazio intenso todo preenchido de crises a serem administradas. Estou para conseguir um trabalho graças à doença de alguém que será levado a uma mesa de cirurgia, que será impedido de trabalhar por dois meses. Como eu posso odiar a doença? Seja a minha, seja a do outro, é ela quem me abre portas, às vezes. O que é bom e o que não é? Nas crises também aprendo. Hoje, aprendi mais uma lição. Vou respeitar melhor minha condição e viver melhor comigo mesmo. Afinal, eu me amo, tenho que suportar minha própria companhia. Pergunta inicial: quando as coisas vão bem, o que se torna difícil? Acho que minha resposta é lidar comigo se torna difícil, porque quando não estou em crise, resta-me tempo de sobra para olhar para mim mesmo. Nem sempre gosto do que vejo. Alguns ajustes precisam ser feitos. Assim seja, assim como está é que não pode ficar.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Efeitos das medicações


Quando estou medicado, tudo ao redor vai perdendo os tons das cores. As mais vivas vão ficando opacas. As boas notícias vão ganhando um gosto de indiferença. Tudo o que eu preciso nesse momento é botar para fora um choro que fica escondido na garganta da alma. Mas os remédios se transformam cada vez mais numa barreira intransponível.
Ontem, tive uma proposta de emprego que me pareceu bem razoável. Um bom plano. Uma sensação de que pelo menos metade das razões das minhas angústias estaria resolvido. Depois da entrevista, das notícias, eu fiquei ali, extasiado?! Não, fiquei feliz. Mas uma felicidade um pouco mais distante, impessoal. Era como saber que alguém que eu não conheço conseguiu algo que precisava muito. Não parecia ter relação comigo.
Talvez seja esse o ponto. Medicado, eu não me conheço. Dizem-me nem notar diferença. Isso me assusta um pouco. EU me sinto diferente. Eu me sinto neutralizado, neutro. Eu não me sinto eu. Sorrio menos, abraço menos, beijo menos, desejo menos. A combinação bombástica de rivotril e exodum me deixam assim. Eu fico com ânsia de vômito no papel de reações adversas. Mas fico ali. Neutro.  Se eu tivesse uma estante no meu quarto, tenho certeza de que seria um lindo bibliocanto. Eu adoraria escorar meus livros. Eles não têm falado comigo da maneira necessária. Mas eu os escoraria, para mantê-los bem em pé.
Nessa sociedade somos tão objetificados tantas vezes que querer ser um objeto talvez seja parte. Ainda não quero com tanta força ser neutro. Ontem foi o primeiro dia de combinação desses medicamentos. Uma hora, no período da noite, um deles começou a perder o efeito. E aí eu ri, sorri, quase até que gargalhei. Ouvi músicas, cantei, dancei. Mas passou. No lugar da quase euforia vem o nó na garganta outra vez. Êta nó que não desata.
Agora, estou aqui, novamente medicado. Vendo tudo pender para os tons de preto e branco. A comida já não me atrai, a bebida não me diz nada, os amigos, fico feliz de tê-los por perto, mas não tenho mais força para busca-los. Aquela companhia que parecia ser indispensável, de repente, tornou-se uma visita distante, uma visita rápida.
Quando eu parar com as medicações [sim, porque eu pretendo parar], tudo vai voltar ao normal, aos poucos. E eu espero conseguir recuperar um pouco desse eu que eu gosto e prefiro.  Mas por agora, eu sei que lá no fundo tem um de mim que quer chorar. Mas não chora. As lágrimas foram secas com lenços de exodum.
Para quem busca entender os efeitos desse medicamento, fica aqui a dica: é o ensaio da morte. O sono é pesado e sem fim. Não se sonha. Não se fantasia. Dorme-se e fim. Ponto final. Um ponto final que dura até o dia seguinte. Cada dia mais, cada remedinho mais, o lindo nascer do sol se torna tão comum que a sensação de ver cada manhã um espetáculo se torna mais maçante que ver um filme longo e chato por repetidas vezes no mesmo dia.  Estou começando a entrar de novo na parte do tratamento que parece que vivo dez mil vezes o mesmo dia. Mas isso também vai me ajudar a ficar calmo para estudar. Ah, pelo menos isso. A médica disse que nesses momentos eu devo buscar fazer o que me agrada, o que me deixa feliz.
O que me agrada... o que me deixa feliz...  humpf. Não quero mais pensar nisso.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Crises de ansiedade, fascículo mil


Tudo na vida tem o seu preço. Negligenciar o tratamento de transtornos de ansiedade também está neste pacote. Como fere uma crise. Como perder o controle de si é ruim. Mas as coisas parece que nunca se formam na minha cabeça como uma base de aprendizagem. A ansiedade não me deixa ver que é ela que está por trás de pequenas oscilações de humor durante o dia. E quando a coisa estoura, pronto. Já é tarde de mais.
Já venho dizendo há alguns dias para mim mesmo que estou sentindo uma leve ansiedade, uma inquietude que fica dentro do meu corpo, que vira uma vontade estranha nos pés de caminhar sem rumo. Mas no sábado eu me segurei. Durante o almoço com pessoas de bem, tudo parecia sob controle. Tudo mesmo. Nada parecia tocar aquela sensação gostosa da paz que é de estar entre gente querida. Mas não.
De repente, depois de termos comigo, no tal do cigarrinho de depois, eu passei a sentir um quê de incômodo, mas não sabia dizer exatamente o quê. A coisa foi toando formato e de súbito lá estavam minhas mãos esfriando e meu estômago querendo se desfazer daquela refeição tão bem preparada, gostinho de amor. A ansiedade aumentando e eu acreditando que era a pressão caindo. Talvez fossem os dois juntos, de mãos dadas, moldando o meu eu que surgiria nos dois dias seguintes. O desconforto do estômago e a tontura, a tremedeira, o frio por dentro do corpo, tudo estava lá, germinando. E eu apostando na pressão. Mas acabei por entender que era que estava ficando ansioso.
Rivotrilei um sublingual e esperei, deitadinho no chão, no quietinho, esperei a espera para o efeito começar. E começou. O jardim voltou a ficar verde, as plantas e as flores voltaram a brilhar naquele jardim que me assistia sucumbir sem mesmo que eu soubesse o que acontecia. Não sei pontualmente o quê, claro, mas algo estava fora do lugar. Talvez fosse só minha paz de espírito, que foi se alongar por aí, para lá de mim.
O dia terminou de passar lindo. Cuidamos do jardim, cuidamos das plantas e a noite cuidou de nós. A lua enluarou toda a cena e enfeitou com seu ar prateado nosso triunfo sob o espaço verde. Que lugar gostoso aquele.
No dia seguinte, eu, crente que era fortão, passei o domingo de manhã na companhia das mesmas alegrias do dia anterior. Mas foi chegando mais gente, e mais e mais. E eu lá, acreditando na força que eu não tenho, mas que naquele momento eu tive. Eu me comportei. Muitas risadas e muitas conversas. Partes leves e pesadas dos que partilhavam daquelas xícaras de café de amizade respingavam na minha alma. Ora me faziam rir, ora me faziam pensar em mim próprio, nas minhas ações. A história do castelo de areia, daquele que não saiu da planta. A planta que não saia da cabeça de sua arquiteta. A relação unilateral fadada ao fim. E lá estava eu, de plateia. Parecia que eram pessoas contanto minha própria história, espalhada em diversas bocas. Mas ouvi tudo e calei. Quando oportuno, opinei. Às vezes, eu só queria sair, ir embora, partir. Mas por quê?, eu me questionava. Estava tão bom ali? Minha adrenalina brincando nos meus pés não entendiam nada disso.
Domingo à noite terminou na rua, com bar e mais gente. Na mesa, aqueles de antes, mas em volta, mais gente ainda. Eu estava lá, claramente me convencendo que eu era forte. Escondi até de mim mesmo o desconforto social. Ansiei e até mesmo tive momentos de querer levantar e partir. Mas fiquei, eu era forte, pensei. E fui. Fiquei até o fim. Até que todos juntos se levantaram e seguiram seus rumos. E eu segui o meu, que não era bem o meu, mas era um rumo que mantinha bom compasso no meu coração. Ahh, coração, coração. Batendo ora forte, ora fraco, ora lento, ora rápido. Mas sempre batia. Eu estava vivo e tudo isso faz parte da vida.
Segunda-feira, dia do terror. Logo pela manhã, acordei com um grito preso na garganta, um grito que eu abafei e impedi de sair. Gritei para dentro de mim. Era o que tinha que ser feito. Soltei pequenas pílulas de estresse e descontentamento, percebido de leve por aqueles que estavam do meu lado. Mas nada de alarmismos. Eu nem mesmo sequer comentara dos riscos que eu mesmo sofria. Acreditei, com a força da minha ingenuidade, que tudo passaria jajá. Mas não passou. Foi crescendo. Briguei pelas pequenas coisas da vida, pelos pequenos planos do dia. Chutei a porta dos estabelecimentos que precisava ir. Não sorri para ninguém. Não tinha sorrisos guardados naquele dia.
Então, de volta para casa, achei que estava seguro, protegido. Consciente de que eu precisava mesmo era relaxar, preparei para mim mesmo uma bela de uma caipirinha. Desceu gostosa pela garganta. Pareceu ter mesmo lavado os gritos sufocados que eu escondi. Uma, duas, três. Até que os planos mudaram. Bem acompanhado, fui a um bar, bem típico, onde ficássemos à vontade. O mesmo bar do domingo. Lá, comemos, bebemos. Rimos e fomos felizes. Mas não, algo era crescente em mim. Bastou a gota d’água para fazer tudo ir pelos ares. Não importa qual gota tenha sido essa, já estava tudo voando para todos os lados. Meu olhar perdido, não focava, procurava um certo conforto que não estava naquele lugar. Fomos até a casa de uma amiga. Lá, mais gente desconhecida. Era para eu ter me sentido acolhido, porque fizeram de tudo para que fosse assim.
Tentei impedir. Tentei escapar dali. Consegui. Corri, mas não sabia para onde eu ia. Cheguei em casa, mas não durei muito tempo. Saí de novo. Andei andei andei e fiz tudo o que eu podia para me arrepender pelo resto amargo do dia da terça. O feriado que minha paz tirou para descansar de mim. Nesse episódio maluco, 5 doses do sublingual rivotril nem fizeram cócegas em mim. Tiraram-me o olhar de loucura. Não me trouxeram nem um pouco de doçura. Saí às 3h40 para caminhar. Caminhei por uma hora, e na hora seguinte foi a vez da minha razão sair por aí.
Eu tenho sorte ainda assim de ter boas companhias. Não gosto de envolver as pessoas nas minhas crises de ansiedade, de pânico. Mas não consegui evitar. Quando vi, estava feito. E agora estou aqui, juntando os meus próprios cacos. Está certo e claro, eu não sou forte, sou fraco. Vou retomar meus remédios depois da aula tensa de amanhã.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A paz que deus (não) me deu.


Quem sabe dizer do que se faz o coração? De fibras musculares que fazem pulsar o sangue por todo o corpo? Não é do coração físico, mas do sentimento. Onde esses dois se encontram? Esses dois corações que batem em meu peito? Por que os dois devem bater no peito? Quem decidiu que o coração emoção moraria no peito foi o próprio coração razão. Seria esse um sinal que a razão está sobre a emoção e não o contrário? Sim a resposta é essa. E eu odeio conhecer a razão, dominar a razão, e a emoção ao deusdará. Que deus, o quê. E o que ele dará? Ele tem me dado desgosto só. Tem orientado seu povo na terra contra o amor. Tem orientado o povo na terra a favor dos formatos quadrados, retilíneos, straghts. Eu odeio esse deus. Esse cara que existe na cabeça das pessoas e que diz que ama todos mas que vai me mandar para o Inferno. Eu já estou no inferno, cara. Eu já conheço o calor que faz por aqui. Logo o calor, mais confortável que o frio. Um deus de amor que vive de obstáculos. Um deus platônico, cujo amor é inatingível. Eu me sinto um romântico olhando para esse deus. Por isso escolho meus próprios ídolos. Não adoro ovelhas de ouro, deus sim. Não em formato de ovelhas. Em formato de ouro. Não é de hoje, é de séculos. Eu não acredito no cristianismo. Eu não acredito no formato que ele deu às emoções do ser humano. Eu não acredito no pecado, porque eu não sei dizer o que é certo e o que é errado. Eu mentiria se dissesse que a bondade é o caminho, porque o que eu sei da bondade foi esse mesmo deus quem me ensinou. Eu não confio nele. Essa é a minha profissão de fé. Eu desconfio dele. Eu odeio ter que negar a letra maiúscula cada vez que escreve o substantivo que se refere a ele. Ele. É onde sua letra maísculua cabe. No incício de frase. Eu faria um d bem grande, em formato de minúsculo bem na fuça da frase para mostrar meu descontamento. deus, me deixe em paz, a dita que você tanto quer pregar entre nós. Eu não acredito nos seus propósitos. Você é uma invenção humana, assim como eu, como o amor que late no meu peito. Como o coração que pulsa fora e dentro da minha razão. Eu amo o amor, mesmo sem saber direito quem ELE é. E se não o sei, a culpa é somente Sua, ó deus dos desmisericordiosos. deus dos seres não odiosos. Eu sou odioso, eu sou detestável. Eu sou meu próprio deus, à imagem e semelhança do que eu penso ser sacro para mim. Eu não me conheço, meus sentimentos vivem num poço sem fim. Esses meus sentimentos que muitos anos deus atormentou dizendo que eu não deveria. Ainda existe a ultima hora para o arrependimento. Ainda existe? Eu já não sei se eu quero me arrepender. Eu quero mesmo é mergulhar nessa lama, pois a terra e a água é igual a vida. A vida que esse mesmo deus me nega viver. Meus corações não batem em compasso. Eu não sei a distância do peito até a cabeça. Eu não sei o que o peito e a cabeça fazem juntos. Deus, me liberte de ti, eu te emploro. Deixa-me ser livre. Não me conte das dez regrinhas que você criou. Deixe que eu crie as minhas. Deixe que eu viva por mim e não por você. Deixa eu fazer meu bezerro de ouro, feito de escárnio e mal dizer. Deixa-me ser livre de verdade. Deixa-me o poder do livre arbítrio. Pare com essa farsa de Inês Pereira. Eis a hora derradeira. Se você me ama de verdade, deixa-me viver na sociedade que eu (não) escolhi. Eu (não) sou mais eu. Deixa-me daqui pra frente ser o meu próprio (Des)deus. 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A crise matinal do dia D


Depois de ter feito a leitura dos pontos principais que eu já tinha pronto, depois de reler um livro todo num dia [nunca consegui fazer isso], depois de ler coisas novas, depois de conversar e descontrair com os alberguistas aqui em Floripa, acordei, há mais ou menos 2 horas, com a adrenalina chegando na goela. A sensação foi crescendo e eu tive que me controlar e procurar o remédio sem acordar nenhum dos 7 alberguistas que dividiam o quarto comigo, e eu com eles. Mas o meu coração não estava nem um pouco divido. Ele estava tomado de uma vontade louca de nem mesmo sei o quê.

Corri tranquilamente em direção ao shorts. O remédio estaria ali, esperando por mim. Mas estava? Não. Serviu para aumentar minha tensão. Meu desespero que aos poucos eu sentia vazar pelos olhos. Movimentos frenéticos da minha mão se enfiaram na mochila atrás de outra cartela. Procurar a começada a essa altura do campeonato é balela. Tomei. Esperei. Diminuiu, mas não passou. Em 15 minutos tomo o café da manhã. Não sei mesmo o que fazer. Estou conturbado e não quero deixar as poucas horas de sono mal dormido atrapalharem meu desempenho na prova. Não estou necessariamente preparado para ela com a lista de livros X, mas tenho alguns conhecimentos que certamente vão me permitir ter as minhas 4 respostas.

O remédio tira a concentração e deixa a pessoa esquecida, disse a médica arregalando os olhos por detrás das lentes dos óculos, que já faziam o papel de arregalamento causando o mesmo efeito ainda que ela não quisesse. São os olhos gigantescos, pupilas dilatas, que eu vejo no espelho. Quando olho para o centro dos olhos, eu a vejo, fazendo ressalvas. Não sei ainda bem o que fazer. Tomei meio remédio, sublingual. E agora, exatamente agora, eu respirei aliviado. Acho que foi a escrita que ajudou a me tranquilizar. Acho que vou tomar café da manhã e tomar a outra parte do remédio. E depois vou deixar que ele faça efeito, comigo na cama, com a Mussalim e com a Bentes. Mais improvável. Mais improviso. Mais sufoco, mais alívio. Mais hora, menos hora, chega a minha vez.