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terça-feira, 23 de abril de 2013

O cara que voa


Lembrar-se dos sonhos tem sido tão raro nos últimos dias... não por falta de produção onírica, mas talvez por não ter mais a mesma capacidade de me recordar das coisas malucas que nos ocorre durante esses momentos que a cabeça finge que para de funcionar. Bem, vamos ao sonho desta noite. O sonho interrompido. Em geral, não temos títulos para sonhos, mas o sonho é meu e eu coloco um para ficar mais especificamente um texto transfigurado de um sonho.

O CARA QUE VOA

Ana Flávia é uma linda mulher, negra, respira afrobrasilidade. Não existe sorriso na terra que passe mais boa sensação que o dela. Não existe alguém para se estar do lado sem sentir-se num sonho. Pois então que em sonho ela me chamou para uma festa afro-brasileira. Eu, certamente, aceitei de pronto. A festa estava lá, era pensar que ela existia e já estávamos nela.
Minha amiga tinha desaparecido temporariamente, afinal, minha mente produzira a festa quase que instantaneamente com o aceite. Assim, ela não teve nem tempo de se aprontar. E não muita gente preenchia o espaço da festa. Um cômodo para ser mais exato. Um cômodo não muito grande e uma música mais batucada. Banquinhos pequenos e baixos espalhados por todos os lados, mas ninguém tomava o acento. Todos ficavam dançando para lá e para cá.
Aos poucos, fui me dando conta que as pessoas iam ficando de roupa branca, tudo foi ficando branco. Até que chegou Ana Flávia. Seu corpo nu, coberto por uma espécie de tinta que dava em sua pele uma textura de um pó sobre ela toda. Menos os cabelos. Esses, negros do contraste, reluziam mais que o branco. Observei que o pálido apagava seu brilho. Ela veio, não olhou e não falou com ninguém. Pôs-se no meio do cômodo numa posição e começou a fazer uns movimentos que me fizeram crer que eu estava diante de uma manifestação artística. Ela começava sua coreografia com um ritmo no corpo que eu não conhecia. Depois de longos minutos, eu me dei conta que eu era o único que olhava para ela, impressionado. Todos ainda simplesmente dançavam.
Fiquei como que hipnotizado pela linda cena que eu via. Ela olhou para mim com uma frase nos olhos: vem dançar. Era como se fosse uma ordem para o meu corpo. Aos poucos fui abaixando também, contorcia-me como se uma serpente se manifestasse dentro de mim aos poucos. Nem cheguei a me abaixar completamente, já tinha subido de novo e já estava entregue ao ritmo dos tambores. Dei-me conta de que eu também usava branco. Eu não me lembro de ter me trocado. Mas é preciso retomar sempre que é um sonho. Em geral, esses que são mais reais precisam desse toque de “pé no chão”.
O ritmo dos tambores já tinha tomado conta de mim e de todos na festa. Mas tudo foi interrompido por um gatuno. Um ladrão, que simplesmente saiu correndo. Eu não vi o que ele roubara, mas todos correram atrás dele dizendo: PEGA!!! Eu dei uns passos andando mais rápido, junto com a multidão. Eu queria fazer algo de bem para aquele lugar que me tratava a alma tão bem. E num passo largo alcei meu voo onírico. Ah, como me fez bem tomar umas lições de voo sonhos atrás.  Voei por entre os galhos de árvore e entendi que estávamos num sítio, ou numa chácara. Estávamos atrás do ladrão. E eu, pelos ares, cheguei primeiro que todos. Era só captura-lo.
Mas algo na fala dele me surpreendeu. Algo que eu não esperava. Eu fora reconhecido. Ele apontou para mim e disse como se tivesse uma plateia para ouvi-lo: Olha o cara que voa de novo! Fiquei com medo de ser reconhecido. Lembro-me de uma sensação de ter feito algo errado e ter sido dedurado. O ladrão conseguiu inverter toda a minha sensação com um dedo apontado para mim no céu. Estava feito, e eu ali voando de volta entre a copa das árvores, fugindo sabe-se lá do quê.
Claro que significa muita coisa, mas durante o sonho não é momento de reflexões de ajuste de personalidade e de medos e ansiedade. Simplesmente corri voando de volta para a festa. Mas não tinha ninguém lá. Parece que todos estavam empenhados na busca do ladrão. E eu não tinha o que fazer a não ser fechar uma janela que estava lá, aberta para mim. Talvez quisesse só fechar porque era tarde, mas agora escrevendo, parece mais ainda que eu queria mesmo era me fechar do mundo.
E eu fechando as janelas, ou aliás – tentando. Quando de repente, não mais que de repente surge uma cabra pela janela. Uma cabra. Simples assim. Um ser caprino, que colocou a cabeça pelo lado de fora e ficou me olhando. Fez um béééééé. E eu pensei: bom, vou ter que fechar a janela mesmo assim, querida. E quando eu tentava fechar, ela enfiava a cabeça pelo vão. Era uma janela verde, dessas que abrem no meio e fecham com uma taramela. E a cabra lá. Quando criei coragem para empurrar com a mão a cabeça dela, surgiu outra. Elas se revezavam para me atrapalhar na árdua missão de fechar o cômodo... Acordei com o telefone tocando.
Os sonhos sempre trazem sentidos ocultos que nos revelam muitas coisas. A cabra eu vi um gif no dia anterior, um que retratava duas cabras inconvenientes. Eu querendo me fechar em mim, e as cabras querendo quebrar meus planos ao meio. Eram duas que se revezavam. Como no gif, duas também. E eu querendo fugir... que parte do meu dia me anda fazendo querer fugir? Acho que preciso pensar...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Bom, nesse sonho eu finalmente estava numa casa que em outros sonhos eu já havia tentado chegar algumas vezes. E lá já estava eu. Não me lembro do percurso, só lembro que cheguei. Era casa do Luís Carlos e do Charles. Em outros sonhos, quem estava nessa casa era o irmão de um deles. Agora, quando entro lá, deparo-me com minha mãe, umas pessoas poucas, todas conhecidas. E eis que por uma porta vem brincando inocentemente a figura de uma menina de seus mais ou menos quatro anos. Linda, era ela. Eu já de pronto me senti atraído. Era bela e educada. E eu, fascinado, tive no mesmo instante a certeza de que era minha filha. E junto à certeza, outra – ela não sabia que eu era seu pai. Mas ali, naquela casa? Nada disso mais importava. O contexto era tão bizarro para que houvesse uma filha minha ali, mas e daí? Era linda, a menina, cujo o nome já perdi nas deslembranças desse sonho. Minha mãe estava ali no sonho e parecia já saber de tudo. E eu titubeei, pensei: conto a ela ou não que sou seu pai? Contei. Ela me deu um abraço apertado e mostrou-se tão feliz, mas tão feliz... aquilo me comoveu muito. Muito mesmo. E então chorei. O clima era de felicidade geral. E então, perguntei para ela: mas quem é sua mãe? E ela só apontou uma mulher na mesa, do outro lado. Era Lucimar. Uma amiga minha da terceira ou quarta série. E o diálogo: Mas Lucimar, por que você não me disse nada? – Por que você gostava da Karla. Karla é uma amiga minha daquelas que a gente nem sabe de quando porque éramos muito criancinhas quando nos conhecemos. Nem lembro o dia que a conheci, só que quando me dei conta de que eu vivia e era alguém, eu já era amigo dela. No sonho chegava meu pai, chegava o Luís Carlos, velho, com o rosto de velho. O Charles como sempre alheio ao tempo que passava para todos, menos para ele. E a criança. Fiquei tão impressionado com o sonho, com a clareza com que vi o rosto da minha filha, que não tinha nome pelo jeito, porque não me importei em perguntar e ninguém falou durante o sonho.


Talvez seja o meu momento do retorno de saturno, e o meu corpo chamando para o ringue minhas obrigações parentais. Não tenho filhos... agora fico pensando se completo ou não a frase com o AINDA.