segunda-feira, 6 de maio de 2013

Quando tudo está bem, o que se torna difícil?


Quando as coisas vão bem, o que se torna difícil? Hoje, um professor meu fez uma brincadeira comigo, dizendo que eu vivo em crises. Disse que sim, que era normal de mim. Mas quem não vive em crises?, pensei depois? Ele, será? Bem, depois de sua provocação, ele em si não importa mais. Importa tudo o que restou na minha mente inquieta. Preciso de dinheiro, preciso de emprego, preciso de boas ideias para desenvolver meus projetos e minha pesquisa do doutorado. Vendo que já estou a caminho de todos esses objetivos, sobram poucas crises para administrar. Assim, sobra fôlego e intervalo entre elas para desenvolver esses passos que me faltam dar até chegar a esses objetivos... mas a pergunta ficou na minha cabeça: por que eu vivo tanto em crise? Nem sei mesmo se é essa a minha natureza. Acho que nem é. Eu sou conhecido por mim mesmo como alguém que leva a vida numa boa, como alguém que ama viver e estar vivo. Confesso que tenho tido tempo e disposição para aproveitar um pouco a vida, mas também tenho me dedicado duro na missão de me tornar um alguém válido socialmente o mais rápido possível. Mas o relógio não funciona ao nosso desejo, nem se dá conta das nossas vontades. A espera é uma das partes da vida que menos gosto. E esperar por alguém que não chega parece se tornar um pouco da minha sina. Isso só porque eu é que fico esperando. É ninguém mais do que a minha própria pessoa que cria a sensação de espera. A expectativa. Todos nós vivemos melhor sem ela. Eu, que odeio expectativas, estou aqui, cheio delas, sem saber onde enfiá-las. E eis a minha mais nova crise. Sorte minha eu me amar o bastante para ter forças para deixar tudo isso para lá. Quando as palavras que eu escrevo vão se materializando na frente dos meus olhos, eu sinto como se eu mesmo tirasse de mim um espinho que me atordoa. Eu sou a minha própria cura. Nada de remédios por hoje, e que esse hoje dure o mais longo dos tempos. Tanta patifaria de ansiedade, tanto alvoroço, depois tanta morbidez com tanta medicação, e no fim, estou eu aqui de novo, sendo ninguém mais que eu mesmo, um alguém em plena crise. Crise que eu posso abdicar, mas não quero. E o professor lá, com aqueles olhos azuis me falando: você está em crise. Tudo em volta daqueles faróis vão se apagando e seu rosto vai se modificando, transfigurando. Os olhos são a janela da alma. A minha não tem janela. Tem uma porta bem larga, um buraco bem fundo. Um vazio intenso todo preenchido de crises a serem administradas. Estou para conseguir um trabalho graças à doença de alguém que será levado a uma mesa de cirurgia, que será impedido de trabalhar por dois meses. Como eu posso odiar a doença? Seja a minha, seja a do outro, é ela quem me abre portas, às vezes. O que é bom e o que não é? Nas crises também aprendo. Hoje, aprendi mais uma lição. Vou respeitar melhor minha condição e viver melhor comigo mesmo. Afinal, eu me amo, tenho que suportar minha própria companhia. Pergunta inicial: quando as coisas vão bem, o que se torna difícil? Acho que minha resposta é lidar comigo se torna difícil, porque quando não estou em crise, resta-me tempo de sobra para olhar para mim mesmo. Nem sempre gosto do que vejo. Alguns ajustes precisam ser feitos. Assim seja, assim como está é que não pode ficar.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Efeitos das medicações


Quando estou medicado, tudo ao redor vai perdendo os tons das cores. As mais vivas vão ficando opacas. As boas notícias vão ganhando um gosto de indiferença. Tudo o que eu preciso nesse momento é botar para fora um choro que fica escondido na garganta da alma. Mas os remédios se transformam cada vez mais numa barreira intransponível.
Ontem, tive uma proposta de emprego que me pareceu bem razoável. Um bom plano. Uma sensação de que pelo menos metade das razões das minhas angústias estaria resolvido. Depois da entrevista, das notícias, eu fiquei ali, extasiado?! Não, fiquei feliz. Mas uma felicidade um pouco mais distante, impessoal. Era como saber que alguém que eu não conheço conseguiu algo que precisava muito. Não parecia ter relação comigo.
Talvez seja esse o ponto. Medicado, eu não me conheço. Dizem-me nem notar diferença. Isso me assusta um pouco. EU me sinto diferente. Eu me sinto neutralizado, neutro. Eu não me sinto eu. Sorrio menos, abraço menos, beijo menos, desejo menos. A combinação bombástica de rivotril e exodum me deixam assim. Eu fico com ânsia de vômito no papel de reações adversas. Mas fico ali. Neutro.  Se eu tivesse uma estante no meu quarto, tenho certeza de que seria um lindo bibliocanto. Eu adoraria escorar meus livros. Eles não têm falado comigo da maneira necessária. Mas eu os escoraria, para mantê-los bem em pé.
Nessa sociedade somos tão objetificados tantas vezes que querer ser um objeto talvez seja parte. Ainda não quero com tanta força ser neutro. Ontem foi o primeiro dia de combinação desses medicamentos. Uma hora, no período da noite, um deles começou a perder o efeito. E aí eu ri, sorri, quase até que gargalhei. Ouvi músicas, cantei, dancei. Mas passou. No lugar da quase euforia vem o nó na garganta outra vez. Êta nó que não desata.
Agora, estou aqui, novamente medicado. Vendo tudo pender para os tons de preto e branco. A comida já não me atrai, a bebida não me diz nada, os amigos, fico feliz de tê-los por perto, mas não tenho mais força para busca-los. Aquela companhia que parecia ser indispensável, de repente, tornou-se uma visita distante, uma visita rápida.
Quando eu parar com as medicações [sim, porque eu pretendo parar], tudo vai voltar ao normal, aos poucos. E eu espero conseguir recuperar um pouco desse eu que eu gosto e prefiro.  Mas por agora, eu sei que lá no fundo tem um de mim que quer chorar. Mas não chora. As lágrimas foram secas com lenços de exodum.
Para quem busca entender os efeitos desse medicamento, fica aqui a dica: é o ensaio da morte. O sono é pesado e sem fim. Não se sonha. Não se fantasia. Dorme-se e fim. Ponto final. Um ponto final que dura até o dia seguinte. Cada dia mais, cada remedinho mais, o lindo nascer do sol se torna tão comum que a sensação de ver cada manhã um espetáculo se torna mais maçante que ver um filme longo e chato por repetidas vezes no mesmo dia.  Estou começando a entrar de novo na parte do tratamento que parece que vivo dez mil vezes o mesmo dia. Mas isso também vai me ajudar a ficar calmo para estudar. Ah, pelo menos isso. A médica disse que nesses momentos eu devo buscar fazer o que me agrada, o que me deixa feliz.
O que me agrada... o que me deixa feliz...  humpf. Não quero mais pensar nisso.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Crises de ansiedade, fascículo mil


Tudo na vida tem o seu preço. Negligenciar o tratamento de transtornos de ansiedade também está neste pacote. Como fere uma crise. Como perder o controle de si é ruim. Mas as coisas parece que nunca se formam na minha cabeça como uma base de aprendizagem. A ansiedade não me deixa ver que é ela que está por trás de pequenas oscilações de humor durante o dia. E quando a coisa estoura, pronto. Já é tarde de mais.
Já venho dizendo há alguns dias para mim mesmo que estou sentindo uma leve ansiedade, uma inquietude que fica dentro do meu corpo, que vira uma vontade estranha nos pés de caminhar sem rumo. Mas no sábado eu me segurei. Durante o almoço com pessoas de bem, tudo parecia sob controle. Tudo mesmo. Nada parecia tocar aquela sensação gostosa da paz que é de estar entre gente querida. Mas não.
De repente, depois de termos comigo, no tal do cigarrinho de depois, eu passei a sentir um quê de incômodo, mas não sabia dizer exatamente o quê. A coisa foi toando formato e de súbito lá estavam minhas mãos esfriando e meu estômago querendo se desfazer daquela refeição tão bem preparada, gostinho de amor. A ansiedade aumentando e eu acreditando que era a pressão caindo. Talvez fossem os dois juntos, de mãos dadas, moldando o meu eu que surgiria nos dois dias seguintes. O desconforto do estômago e a tontura, a tremedeira, o frio por dentro do corpo, tudo estava lá, germinando. E eu apostando na pressão. Mas acabei por entender que era que estava ficando ansioso.
Rivotrilei um sublingual e esperei, deitadinho no chão, no quietinho, esperei a espera para o efeito começar. E começou. O jardim voltou a ficar verde, as plantas e as flores voltaram a brilhar naquele jardim que me assistia sucumbir sem mesmo que eu soubesse o que acontecia. Não sei pontualmente o quê, claro, mas algo estava fora do lugar. Talvez fosse só minha paz de espírito, que foi se alongar por aí, para lá de mim.
O dia terminou de passar lindo. Cuidamos do jardim, cuidamos das plantas e a noite cuidou de nós. A lua enluarou toda a cena e enfeitou com seu ar prateado nosso triunfo sob o espaço verde. Que lugar gostoso aquele.
No dia seguinte, eu, crente que era fortão, passei o domingo de manhã na companhia das mesmas alegrias do dia anterior. Mas foi chegando mais gente, e mais e mais. E eu lá, acreditando na força que eu não tenho, mas que naquele momento eu tive. Eu me comportei. Muitas risadas e muitas conversas. Partes leves e pesadas dos que partilhavam daquelas xícaras de café de amizade respingavam na minha alma. Ora me faziam rir, ora me faziam pensar em mim próprio, nas minhas ações. A história do castelo de areia, daquele que não saiu da planta. A planta que não saia da cabeça de sua arquiteta. A relação unilateral fadada ao fim. E lá estava eu, de plateia. Parecia que eram pessoas contanto minha própria história, espalhada em diversas bocas. Mas ouvi tudo e calei. Quando oportuno, opinei. Às vezes, eu só queria sair, ir embora, partir. Mas por quê?, eu me questionava. Estava tão bom ali? Minha adrenalina brincando nos meus pés não entendiam nada disso.
Domingo à noite terminou na rua, com bar e mais gente. Na mesa, aqueles de antes, mas em volta, mais gente ainda. Eu estava lá, claramente me convencendo que eu era forte. Escondi até de mim mesmo o desconforto social. Ansiei e até mesmo tive momentos de querer levantar e partir. Mas fiquei, eu era forte, pensei. E fui. Fiquei até o fim. Até que todos juntos se levantaram e seguiram seus rumos. E eu segui o meu, que não era bem o meu, mas era um rumo que mantinha bom compasso no meu coração. Ahh, coração, coração. Batendo ora forte, ora fraco, ora lento, ora rápido. Mas sempre batia. Eu estava vivo e tudo isso faz parte da vida.
Segunda-feira, dia do terror. Logo pela manhã, acordei com um grito preso na garganta, um grito que eu abafei e impedi de sair. Gritei para dentro de mim. Era o que tinha que ser feito. Soltei pequenas pílulas de estresse e descontentamento, percebido de leve por aqueles que estavam do meu lado. Mas nada de alarmismos. Eu nem mesmo sequer comentara dos riscos que eu mesmo sofria. Acreditei, com a força da minha ingenuidade, que tudo passaria jajá. Mas não passou. Foi crescendo. Briguei pelas pequenas coisas da vida, pelos pequenos planos do dia. Chutei a porta dos estabelecimentos que precisava ir. Não sorri para ninguém. Não tinha sorrisos guardados naquele dia.
Então, de volta para casa, achei que estava seguro, protegido. Consciente de que eu precisava mesmo era relaxar, preparei para mim mesmo uma bela de uma caipirinha. Desceu gostosa pela garganta. Pareceu ter mesmo lavado os gritos sufocados que eu escondi. Uma, duas, três. Até que os planos mudaram. Bem acompanhado, fui a um bar, bem típico, onde ficássemos à vontade. O mesmo bar do domingo. Lá, comemos, bebemos. Rimos e fomos felizes. Mas não, algo era crescente em mim. Bastou a gota d’água para fazer tudo ir pelos ares. Não importa qual gota tenha sido essa, já estava tudo voando para todos os lados. Meu olhar perdido, não focava, procurava um certo conforto que não estava naquele lugar. Fomos até a casa de uma amiga. Lá, mais gente desconhecida. Era para eu ter me sentido acolhido, porque fizeram de tudo para que fosse assim.
Tentei impedir. Tentei escapar dali. Consegui. Corri, mas não sabia para onde eu ia. Cheguei em casa, mas não durei muito tempo. Saí de novo. Andei andei andei e fiz tudo o que eu podia para me arrepender pelo resto amargo do dia da terça. O feriado que minha paz tirou para descansar de mim. Nesse episódio maluco, 5 doses do sublingual rivotril nem fizeram cócegas em mim. Tiraram-me o olhar de loucura. Não me trouxeram nem um pouco de doçura. Saí às 3h40 para caminhar. Caminhei por uma hora, e na hora seguinte foi a vez da minha razão sair por aí.
Eu tenho sorte ainda assim de ter boas companhias. Não gosto de envolver as pessoas nas minhas crises de ansiedade, de pânico. Mas não consegui evitar. Quando vi, estava feito. E agora estou aqui, juntando os meus próprios cacos. Está certo e claro, eu não sou forte, sou fraco. Vou retomar meus remédios depois da aula tensa de amanhã.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A paz que deus (não) me deu.


Quem sabe dizer do que se faz o coração? De fibras musculares que fazem pulsar o sangue por todo o corpo? Não é do coração físico, mas do sentimento. Onde esses dois se encontram? Esses dois corações que batem em meu peito? Por que os dois devem bater no peito? Quem decidiu que o coração emoção moraria no peito foi o próprio coração razão. Seria esse um sinal que a razão está sobre a emoção e não o contrário? Sim a resposta é essa. E eu odeio conhecer a razão, dominar a razão, e a emoção ao deusdará. Que deus, o quê. E o que ele dará? Ele tem me dado desgosto só. Tem orientado seu povo na terra contra o amor. Tem orientado o povo na terra a favor dos formatos quadrados, retilíneos, straghts. Eu odeio esse deus. Esse cara que existe na cabeça das pessoas e que diz que ama todos mas que vai me mandar para o Inferno. Eu já estou no inferno, cara. Eu já conheço o calor que faz por aqui. Logo o calor, mais confortável que o frio. Um deus de amor que vive de obstáculos. Um deus platônico, cujo amor é inatingível. Eu me sinto um romântico olhando para esse deus. Por isso escolho meus próprios ídolos. Não adoro ovelhas de ouro, deus sim. Não em formato de ovelhas. Em formato de ouro. Não é de hoje, é de séculos. Eu não acredito no cristianismo. Eu não acredito no formato que ele deu às emoções do ser humano. Eu não acredito no pecado, porque eu não sei dizer o que é certo e o que é errado. Eu mentiria se dissesse que a bondade é o caminho, porque o que eu sei da bondade foi esse mesmo deus quem me ensinou. Eu não confio nele. Essa é a minha profissão de fé. Eu desconfio dele. Eu odeio ter que negar a letra maiúscula cada vez que escreve o substantivo que se refere a ele. Ele. É onde sua letra maísculua cabe. No incício de frase. Eu faria um d bem grande, em formato de minúsculo bem na fuça da frase para mostrar meu descontamento. deus, me deixe em paz, a dita que você tanto quer pregar entre nós. Eu não acredito nos seus propósitos. Você é uma invenção humana, assim como eu, como o amor que late no meu peito. Como o coração que pulsa fora e dentro da minha razão. Eu amo o amor, mesmo sem saber direito quem ELE é. E se não o sei, a culpa é somente Sua, ó deus dos desmisericordiosos. deus dos seres não odiosos. Eu sou odioso, eu sou detestável. Eu sou meu próprio deus, à imagem e semelhança do que eu penso ser sacro para mim. Eu não me conheço, meus sentimentos vivem num poço sem fim. Esses meus sentimentos que muitos anos deus atormentou dizendo que eu não deveria. Ainda existe a ultima hora para o arrependimento. Ainda existe? Eu já não sei se eu quero me arrepender. Eu quero mesmo é mergulhar nessa lama, pois a terra e a água é igual a vida. A vida que esse mesmo deus me nega viver. Meus corações não batem em compasso. Eu não sei a distância do peito até a cabeça. Eu não sei o que o peito e a cabeça fazem juntos. Deus, me liberte de ti, eu te emploro. Deixa-me ser livre. Não me conte das dez regrinhas que você criou. Deixe que eu crie as minhas. Deixe que eu viva por mim e não por você. Deixa eu fazer meu bezerro de ouro, feito de escárnio e mal dizer. Deixa-me ser livre de verdade. Deixa-me o poder do livre arbítrio. Pare com essa farsa de Inês Pereira. Eis a hora derradeira. Se você me ama de verdade, deixa-me viver na sociedade que eu (não) escolhi. Eu (não) sou mais eu. Deixa-me daqui pra frente ser o meu próprio (Des)deus. 

terça-feira, 23 de abril de 2013

Sentidos para o ar


Quando passou o ar, que em si, era diferente

Meus sentidos se cegaram

O breve toque, seu hiato,

O cheiro, alheio, no inverso vácuo

O gosto na minha boca inventado

Só real como a vista

Fogo etéreo, desejo artista,

Ártico filosofista

E como ar que era, em si próprio se desfez

O tato, o olfato, o palato,

O seco, vácuo.

A visão, a audição,

Ah... ilusória desejada sensação


O cara que voa


Lembrar-se dos sonhos tem sido tão raro nos últimos dias... não por falta de produção onírica, mas talvez por não ter mais a mesma capacidade de me recordar das coisas malucas que nos ocorre durante esses momentos que a cabeça finge que para de funcionar. Bem, vamos ao sonho desta noite. O sonho interrompido. Em geral, não temos títulos para sonhos, mas o sonho é meu e eu coloco um para ficar mais especificamente um texto transfigurado de um sonho.

O CARA QUE VOA

Ana Flávia é uma linda mulher, negra, respira afrobrasilidade. Não existe sorriso na terra que passe mais boa sensação que o dela. Não existe alguém para se estar do lado sem sentir-se num sonho. Pois então que em sonho ela me chamou para uma festa afro-brasileira. Eu, certamente, aceitei de pronto. A festa estava lá, era pensar que ela existia e já estávamos nela.
Minha amiga tinha desaparecido temporariamente, afinal, minha mente produzira a festa quase que instantaneamente com o aceite. Assim, ela não teve nem tempo de se aprontar. E não muita gente preenchia o espaço da festa. Um cômodo para ser mais exato. Um cômodo não muito grande e uma música mais batucada. Banquinhos pequenos e baixos espalhados por todos os lados, mas ninguém tomava o acento. Todos ficavam dançando para lá e para cá.
Aos poucos, fui me dando conta que as pessoas iam ficando de roupa branca, tudo foi ficando branco. Até que chegou Ana Flávia. Seu corpo nu, coberto por uma espécie de tinta que dava em sua pele uma textura de um pó sobre ela toda. Menos os cabelos. Esses, negros do contraste, reluziam mais que o branco. Observei que o pálido apagava seu brilho. Ela veio, não olhou e não falou com ninguém. Pôs-se no meio do cômodo numa posição e começou a fazer uns movimentos que me fizeram crer que eu estava diante de uma manifestação artística. Ela começava sua coreografia com um ritmo no corpo que eu não conhecia. Depois de longos minutos, eu me dei conta que eu era o único que olhava para ela, impressionado. Todos ainda simplesmente dançavam.
Fiquei como que hipnotizado pela linda cena que eu via. Ela olhou para mim com uma frase nos olhos: vem dançar. Era como se fosse uma ordem para o meu corpo. Aos poucos fui abaixando também, contorcia-me como se uma serpente se manifestasse dentro de mim aos poucos. Nem cheguei a me abaixar completamente, já tinha subido de novo e já estava entregue ao ritmo dos tambores. Dei-me conta de que eu também usava branco. Eu não me lembro de ter me trocado. Mas é preciso retomar sempre que é um sonho. Em geral, esses que são mais reais precisam desse toque de “pé no chão”.
O ritmo dos tambores já tinha tomado conta de mim e de todos na festa. Mas tudo foi interrompido por um gatuno. Um ladrão, que simplesmente saiu correndo. Eu não vi o que ele roubara, mas todos correram atrás dele dizendo: PEGA!!! Eu dei uns passos andando mais rápido, junto com a multidão. Eu queria fazer algo de bem para aquele lugar que me tratava a alma tão bem. E num passo largo alcei meu voo onírico. Ah, como me fez bem tomar umas lições de voo sonhos atrás.  Voei por entre os galhos de árvore e entendi que estávamos num sítio, ou numa chácara. Estávamos atrás do ladrão. E eu, pelos ares, cheguei primeiro que todos. Era só captura-lo.
Mas algo na fala dele me surpreendeu. Algo que eu não esperava. Eu fora reconhecido. Ele apontou para mim e disse como se tivesse uma plateia para ouvi-lo: Olha o cara que voa de novo! Fiquei com medo de ser reconhecido. Lembro-me de uma sensação de ter feito algo errado e ter sido dedurado. O ladrão conseguiu inverter toda a minha sensação com um dedo apontado para mim no céu. Estava feito, e eu ali voando de volta entre a copa das árvores, fugindo sabe-se lá do quê.
Claro que significa muita coisa, mas durante o sonho não é momento de reflexões de ajuste de personalidade e de medos e ansiedade. Simplesmente corri voando de volta para a festa. Mas não tinha ninguém lá. Parece que todos estavam empenhados na busca do ladrão. E eu não tinha o que fazer a não ser fechar uma janela que estava lá, aberta para mim. Talvez quisesse só fechar porque era tarde, mas agora escrevendo, parece mais ainda que eu queria mesmo era me fechar do mundo.
E eu fechando as janelas, ou aliás – tentando. Quando de repente, não mais que de repente surge uma cabra pela janela. Uma cabra. Simples assim. Um ser caprino, que colocou a cabeça pelo lado de fora e ficou me olhando. Fez um béééééé. E eu pensei: bom, vou ter que fechar a janela mesmo assim, querida. E quando eu tentava fechar, ela enfiava a cabeça pelo vão. Era uma janela verde, dessas que abrem no meio e fecham com uma taramela. E a cabra lá. Quando criei coragem para empurrar com a mão a cabeça dela, surgiu outra. Elas se revezavam para me atrapalhar na árdua missão de fechar o cômodo... Acordei com o telefone tocando.
Os sonhos sempre trazem sentidos ocultos que nos revelam muitas coisas. A cabra eu vi um gif no dia anterior, um que retratava duas cabras inconvenientes. Eu querendo me fechar em mim, e as cabras querendo quebrar meus planos ao meio. Eram duas que se revezavam. Como no gif, duas também. E eu querendo fugir... que parte do meu dia me anda fazendo querer fugir? Acho que preciso pensar...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Marley e Ele


Marley e Ele

Para Evely Libanori


O homem, feliz, ou bêbado, ou drogado, ou doente mental. Mal vestido, falando bem mole. Mochila nas costas, calça jeans surrada e camiseta de propaganda de algo, já um tanto desbotada. Ele fala com um Cão. E está feliz. Muito. O diferente ainda é como ele fala com o Cão. Ele não se posiciona como dono do Cão, mas como Amigo. Ele dizia – num chora, heim, Amigo! Que que foi?! Num quero ninguém choran perdimim, heim? Pó tratá di ficá feliz!
O Cachorro, mais surrado que o homem, declaradamente de rua, não parecia querer ser pertencido. Apenas era Amigo do homem. Ele, de pelagem negra, suja de areia de uma minúscula faixa de menos de 5 metros de praia na Avenida Beira-Mar. Ele parecia contar algo ao seu Amigo de outra espécie, o humano. Parecia contar um algo bem interessante. Coisas que fazemos entre Amigos. E seu Amigo humano fazia vistas de que entendia tudo e também replicava à altura dos rosnados explicativos. A cena era linda de se olhar. O mar no fundo brilhava dando a sensação que só era aquilo mesmo, na vastidão do oceano, a se observar. Era, ali, a única coisa que importava, para os dois. Um ao outro.
Que que foi? Tá cum fome?  - O bípede, que só tinha sua condição humana a oferecer, assim o fez com gosto e afinco. Virou ele todo a boca do Cachorro Amigo. Assim, começou a abordar os transeuntes – Dá uma moeda, pu favô, seu sinhô, minha senhora, minina, moço.  Assim, tendo juntado um tanto, meteu a mão no bolso de sua calça e de lá tirou como um tesouro uns dinheiros que nos seus olhos brilhavam como um pote de ouro no fim do arco-íris. Seu sorriso me contava que ele tinha o que faltava do dinheiro. E assim, ele e seu Amigo Cão partiram.
Algum tempo depois, voltam os Amigos, uma mais faceiro que o outro. O bípede, de tão contente e feliz que estava até me contagiou, e teria contagiado mais pessoas se as poucas que estavam ao redor prestassem atenção além de si mesmas, na sala de jantar, preocupadas em nascer e morrer. O Cão, então, esboçava contentamento que se derramava por onde passava. As pessoas notavam os dois, mas olhavam diretamente só para o Cão. O bípede não lhes merecia a atenção, pensavam, acho. E ele lá, com a boca aberta num sorriso largo, com a linguona para fora babando feliz, com saltos altos e com o rabo que parecia abanar o Cachorro com muito mais força que tinha o próprio dono!
- Ó que a gente tem!!  - disse gabando-se com uma sacola plástica em uma das mãos. Era a compra com a vaquinha coletiva. Então, levantou a sacola e tirou de dentro um saco de comida. Mas só para o Amigo. Um saco de ração. Ele falava a quem tivesse ouvidos – Rai cumê, rapaizi. Rai lá e enche esse bucho magro”. O Amigo não necessariamente magro, nem parecia esfomeado. Parecia mais um homem independente sentado no quiosque da praia, com seu Amigo humano, dividindo calma e educadamente uma bela porção de cores, sabores, cheiros e tudo mais sortidos.
Tão irradiante estavam, só faltou a música. Então, sacou o o celular do bolso da calça e logo colocou um funk que gemia “desliza, desliza, desliza no quiabo!”. Ele não dançava. Apenas olhava contente seu Amigo comer tranquilamente a ração. O Cão era de rua, e era nobre. Comeu com calma, aproveitando mais a companhia do que o prato. Eles eram Amigos. E de súbito, o homem virou-se para mim e disse: agora é a MINHA vez. E depois sorriu novamente.  Sorriu um sorriso banguela, amarelo esculro e preto. Um sorriso barroco – entre o sublime e o grotesco. Um sorriso sincero, de alma. Pegou no quiosque uma cerveja que pagara com o restante do dinheiro da ração.
Ele estava feliz de ver bem seu Amigo e o fato de viver com as sobras não lhe parecia grave. Senti lendo nos olhos dele um “É o bastante para nós dois, pelo menos por hoje.” Ele, o Cão. Ele, o Humano. Eles. Amigos do peito.
            ‘