Esses dias, vi um vídeo da radio
uol que listou algumas das frases mais odiadas pelos gays, dessas do tipo “quem
é o homem e quem é a mulher”, “não encontrou a mulher/o homem certa(o)” mimimi.
Está bem escancarado que essas frases são de héteros para gays, quer dizer, são
observações feitas dentro dos meios que não são gays. São modos que o hétero encontra
para enganar-se. Ele acha que dizer essas coisas para um gay é aceitá-lo, que
isso vai torna-lo socialmente mais saudável. Mas não é assim. Quando um hétero fala essas
coisas para um gay, o que ele está fazendo é desacreditar o traço gay. Como não
existem efeitos “reversores” de sexualidade, o hétero acaba só se queimando
mesmo. Não conheço nenhuma história de um gay que ouviu que não tinha
encontrado a mulher certa e depois saiu procurando por ela para a “cura”. Nunca
mesmo. Nem nada parecido e nem similar. Quando o hétero fala isso, ele está
reforçando o machismo de cada dia. Ele pensa que está sendo amigável, mas está
sendo ofensivo, na verdade. Não está respeitando o espaço do outro. Isso não é
novidade entre os gays, não é mesmo? Assim, falar dessas perguntas é
falar do lado do hétero sobre o gay. O que eu gostei da reportagem que eu
assisti é que se trata da linha de gay para gay. Aí, o pessoal solta a língua e
fala umas coisas que seria muito difícil de se dizer para um hétero.
Principalmente porque depois de dizer algo, o gay teria que explicar – e muito –
para o hétero. Não porque este é burro, mas é que ser hétero é uma condição tão
favorecida na sociedade, que o preço que se paga por estar na normatividade é a
cegueira. A maior parte dos héteros não consegue enxergar como isso tudo pode
ser só a reafirmação do heterozismo, o desrespeito ao outro, e o pior: mostra
como esse hétero está cego, trancadinho no mundo dele, que nem fica com vergonha
de falar uma coisa dessas. Ele nem percebe o quão hipócrita ele se torna vestindo
sua boca com tais pensares. E então, caio a pensar novamente
no mesmo ponto que venho pensando desde sei-lá-quando. Quando alguém me fala
uma dessas frases, a tal da “Tem que ser muito macho para fazer o que vocês fazem”. Eu penso,
tem que ser muito homem, não macho. Mas por que é difícil ser gay? Será que é
difícil encontrar outro gay? Será que o pinto cai no chão depois do sexo? Será
que isso e aquilo? Será que um mundo de proposições bizarras? A minha resposta
a isso é: Se é difícil ser gay, a culpa não é do gay, mas do macho. Se o gay
tem que ter muita coragem para ser gay socialmente é porque o macho torna o
simples sexo em um tabu tão grande que é capaz de matar por isso. Se é difícil ser
gay, temos que agradecer ao macho. E quando esse tipo de frase vem da boca de
um macho, isso me soa mais como uma ameaça, do tipo “eu estou no comando e
mandei você ficar trancado no armário, e você saiu porquê? Você está me
desafiando?”
Então, termino este texto com um
agradecimento ao macho que aplica em nós o machismo de cada dia. Obrigado, a
vida sem você seria só rosa, não teria esses tons de vermelho sangue que
escorre dos seus olhos quando olha para mim e que escorre do meu corpo quando
você me agride por eu ser não importa o quê independentemente de você. Obrigado
por ofender-se com a minha existência e fazer a minha vida muito difícil só porque
eu não sou igual a você. Tem que ser macho para ser gay? Não,
tem que ser gay para ser gay. Ser macho é simples, fácil, seguro, barato. É
claro, é um mundo feito por machos, de macho para macho. O mundo para os gays é
como um abridor de latas para canhotos. O canhoto até consegue abrir a lata,
mas precisou se adaptar bruscamente toda a sua vida para abrir uma simples
porra de uma lata. E se abrir a lata é já uma aventura na mão do canhoto, abrir
o armário pelo lado de dentro é pular na cova dos leões.
quarta-feira, 12 de março de 2014
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Globo paga de bonita depois do Beijo Gay
Eis
o comunicado da Globo sobre o beijo de Niko e Felix
“Toda cena de novela é consequência da
história, responde a uma necessidade dramatúrgica e reflete o momento da
sociedade. O beijo entre Felix e Niko selou uma relação que foi construída com
muito carinho pelos dois personagens. Foi, portanto, o desdobramento
dramatúrgico natural dessa trama. A pertinência desse desfecho foi construída
com muita sensibilidade pelo autor, diretor e atores e assim foi percebida pelo
público. É importante lembrar que o relacionamento homossexual sempre esteve
presente nas nossas novelas e séries de maneira constante, responsável e
natural. A cena esteve de acordo com essa premissa e com a relevância para a
história”.
Vamos
começar?
“Toda
cena de novela é consequência da história, responde a uma necessidade
dramatúrgica e reflete o momento da sociedade.” – Pera lá, cara pálida. A
necessidade dramatúrgica o escambau! Leia-se o medo de perder tantos
telespectadores. O momento da sociedade de ver o beijo gay está sobressalente
na boca do povo e na mídia já faz alguns anos. Não venham querer se colocar
como “dentro do tempo”, ou “somos super atuais”, ou “olha só que novidade vamos
propor”! De fato, o beijo em rede nacional no horário nobre foi uma novidade,
mas não façam parecer que foi ontem que o assunto nasceu, heim?
“O
beijo entre Felix e Niko selou uma relação que foi construída com muito carinho
pelos dois personagens.” – É delicado falar disso, né? Estamos num momento –
pelo menos para a Globo – de construir uma base social de aceitação do gay. O
beijo foi feito dentro de muito carinho. Agora, tem muito personagem na novela
que beijou e transou horrores por puro erotismo. O gay não pode só curtir,
então? O que me parece é que a Globo quer promover a aceitação do gay com base
nos contos de fada da Disney. Não, globo, não faça isso!! O beijo gay é
libertação e os contos de fada é resignação!! Só falta agora colocar o gay
esperando outro gay num cavalo branco e tal. NÃO!
“Foi,
portanto, o desdobramento dramatúrgico natural dessa trama.” – Natural seria se
tivesse aparecido um beijo do Eron e do Niko, que foram o casal gay da novela
por muito mais tempo do que a relação do Felix e do Niko. Desdobramento natural
o carai, mano! Então o Eron e o Niko não se amavam? É isso???
“A
pertinência desse desfecho foi construída com muita sensibilidade pelo autor,
diretor e atores e assim foi percebida pelo público.” – Pertinência? Foi o
capítulo mais longo do mundo, e vários casais se casaram durante a novela.
Porque não casaram o Niko e o Felix também, então?? Porque não fizeram o beijo
na frente do juiz de paz? Eu sei, calma, um passo de cada vez, mas, Globo, se
liga, fia! Vem sambar agora de boazuda? Não dá, né?
Cansei!!
Vou estudar ;) A globo querendo sair de heroi, né? Tenho muito medo!!
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domingo, 5 de janeiro de 2014
Quem é você na fila do mercado?
O ano de 2013 terminou, dando
espaço a um ano tão repleto de coisas a serem feitas, e ainda acumulando tudo
aquilo que deveria ter sido feito no ano passado e ficou para esse ano. De
qualquer forma, eu não estava fazendo nada disso, estava no mercado, comprando
os ingredientes para preparar um bolo. Estava dando um bolo nos artigos, nos
fichamentos. Um bolo igual ao que estou dando agora.
E no
mercado chique estava escolhendo quais os produtos da receita eu deveria
comprar, pois havia algo já em casa. O mercado semi lotado. Nem muita gente,
nem tão vazio. A não ser pela variedade de produtos, que de chique não tinha
nada. Apenas uma ou duas marcas daquilo que tinha. Do que não tinha, não tinha
nada. Não tinha mesmo. Mas era chique, mulheres quase senhoras empurravam seus
carrinhos com bolsa a tira colo, colar de contas. Quando se tornarem senhoras
de verdade, eu as verei de tallieur e colar de pérolas, mas por ora bastavam
aquelas roupas que se fossem de uma cor só seriam básicas, mas as estampas
sobriamente coloridas desenhavam na cabeça dos outros clientes: eu sou chique.
Mas no
mercado chique não tinha chocolate. Eu não falo achocolatado. Falo chocolate em
pó, vulgo do padre. Nestlé. É o que tem de mais chique dentre as marcas
nacionais. Na verdade, esse tipo de produto não apresenta opções importadas nas
prateleiras de um mercado numa cidade como essa. Enfim, não tinha o chocolate e
fomos no mercado da esquina, que era um mercado mais popular, menos glamuroso.
As
pessoas que andavam pelo corredor do segundo mercado eram mais mistas, mais
coloridas. Via-se de todo tipo de comportamento. As sessões nas gôndolas
apresentavam outra ordem, uma que eu não estava habituado. Enquanto eu
procurava o tal chocolate, fui batendo o olho nos preços dos produtos que eu
comprara há pouco e verificando que alguns preços eram agressivamente mais
baratos e outros eram a mesma coisa. Odiei-me por comprar uma lata de tomates
pelados, que é chique, por dois reais a mais do que estava sendo vendido no
mercado não chique.
Quando
fiz a curva e quase entrei em outro corredor, um homem peludo com a camisa de
botões abertos até o começo do estômago lutava para não derrubar o carrinho.
Quando ele recuperara a estabilidade, olhou para mim com seu hálito alcólico e
disse com o olhar feliz: nóis capota mais num cai!. Eu ri meu sorriso amarelo
que dizia não querer contato, mas ele ignorava meus claros sinais.
- Tarra
lá e
Meu
sorriso amarelo se desfez e eu retribui com um riso mais sincero. Conversei com
ele algumas frases e retomei minha busca pelo chocolate, enquanto isso
refletia. Ninguém no outro mercado olhou para minha cara. E o senhor bêbado era
o mais simpático do universo com seus cabelos soltos pelo ombro de um jeito que
nem um neutrox inteiro seria capaz de desemaranhar. Pensei em algumas pessoas
que eu conhecia, que tinham o perfil de cliente do mercado não chique. Enquadrei
vários ali com meu julgamento que me colocava em lugar superior a eles. Eu não
era superior, eu era inferior e metido. E também arrogante. Foi o bêbado que me
disse sem saber. Toda a simpatia dele esfregava na minha cara minha prepotência
montada em nada.
Pensei
em quem são as pessoas na fila do mercado. Quem somos nós quando vamos ao
mercado? Peguei o produto e saí. Paguei, entrei no carro e parti. Pouco antes
de chegar em casa, procurei na minha memória uma situação em que tivesse
procurado fazer contato com outras pessoas no mercado. E ali estava meu
julgamento de mim mesmo. Eu trocava receitas nas sessões de hortifrúti com
aquelas mulheres com cara de mãe que fazem de tudo para que o marido e os
filhos comessem um pouco mais de vegetais. Eu era mãe no mercado. Em casa, os
vegetais estragavam, mas no mercado eu era mãe. Uma mãe se sentindo açoitada
por ter sido interpelada por um desconhecido que nem reconhecia minha situação
de mãe. Não se fala como ele falou com uma mãe.
Eu não quero mais ser mãe.
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
Máscara no chão, eu segui meu caminho sem olhar para trás
Eu estava lá, esperando minha carona no fim da noite do meu
trabalho. Para facilitar, eu espero na esquina, o que evita de fazer o percurso
de carro por mais 4 quarteirões, dada a disposição das mãos das ruas e o
trajeto até meu destino. Estava lá eu cansado e com o dinheiro na carteira para
pagar meu terapeuta. Eu, a noite, os arbustos, todos silenciosos naquela
esquina sem movimento algum. Mas não temia, porque não era a primeira que eu
ficara ali e nunca nada de diferente acontecera nas vezes anteriores. Então,
depois de um dia de folga de crises de ansiedade, eu esperava com a sensação de
bem-estar e de autocontrole. Tudo estava indo bem.
Foi então que vi se aproximando uma figura. Um rapaz
aparentemente mais novo do que eu. De calças jeans, camiseta e boné. Sua pele,
entre o moreno e o mulato. Tinha o olhar cansado e um pouco perdido, e também
vasos que pulsavam em seus glóbulos, fazendo de sua aparição uma ponta de
início dos meus medos. Tive medo de ser assaltado. Nem me questionei se fosse
pela cor de sua pele, pelo jeito que ele dispunha seus pés em seus passos
perdidos, lentos como que com cuidado, ou perdidos, como que sem rumo. Olhava
para os lados. Não sabia dizer o motivo, mas em minha cabeça ele procurava por
testemunhas que preferia evitar e cometer seu delito de modo mais tranquilo.
Aproximou-se de mim e pediu um dinheiro. Tinha o ar triste e
queria comer alguma coisa e beber um algo também. Pediu-me gentilmente, com um
palavreado de gírias que passaram desconhecidas por minha limitada experiência
social. Tinha medo de não dar um dinheiro e despertar nele sua ira, que o
impulsionaria ao roubo. Tinha medo de dar o dinheiro e ser roubado quando
pusesse a carteira à vista. Tinha pena de vê-lo tão desorientado. Abri a
carteira e dei-lhe uma moeda, assim poupava de mostrar dentro dela algumas notas,
já destinadas ao terapeuta.
Como que por gratidão, o rapaz desembestou a contar sua
história para mim. Vinha do Paraná, coincidentemente de uma cidade perto de
Maringá, de onde eu vinha também. Então, ficou estabelecido o primeiro traço de
identificação. Cantei prontamente essa pedra, achando que pudesse ser um bom
argumento para ele não me roubar. Mas no fundo mesmo, não parecia ameaçador,
não fosse todo o contexto em que tudo se deu. Disse que viera há duas semanas
com a namorada e que a dita o pusera para fora, restando-lhe apenas vagar pelas
ruas dia e noite. Procurou a polícia, o conselho tutelar, isso e aquilo, para
tentar conseguir o dinheiro da passagem de volta para sua terra natal. Tentativas
todas frustradas. Restava-lhe mesmo vagar aqui e acolá. Chegou mesmo a me
perguntar, depois de descrevê-la, se eu tinha visto sua ex andando pelas
redondezas.
Foi quando ouvi atrás de mim uns outros passos. Minha mente
advertiu: emboscada! Estava perdido naquele momento. Mergulhado no medo, não
sabia como reagir. O segundo elemento era um quase negro, vestindo xortes e
camiseta. Tinha consigo um pano, tão surrado quanto suas roupas. Esse
claramente estava na rua há mais tempo que o primeiro. E estava ali, logo atrás
de mim, aproximando-se. Não podia conter meu medo. Logo, desvirei e comecei a
olhar para ambos, ora um, ora outro, até que o segundo chegou e nos
cumprimentou. Pensei: se conhecem. É uma emboscada, certamente. E o segundo
começou a conversar conosco como se quem não quisesse nada. Cumprimentou,
perguntou como vamos, apertou nossas mãos e se pôs a conversar. E no meio da
conversa, que eu não conseguia acompanhar muito bem dado o pânico que estava sentindo,
ele contou sua história também. Aparentemente desinteressado, o primeiro disse
que iria se sentar, que estava cansado. Como eu me reposicionara para não
perder nem um nem outro de vista, acabei ficando de costas para a rua, e o
primeiro foi bem na direção que eu não poderia avistá-lo. Disfarçando meu medo,
virei-me e fiquei novamente com o olho pregado nos dois. Éramos ali nós três:
dois que moravam na rua, um há mais tempo que o outro, e eu, que tinha ondes
morar e comida quentinha em casa, me esperando.
O segundo perguntou meu nome, e eu respondi. Ele também
dissera o seu: Charles. Contou-me que vinha de uma cidade do paraná. Usei a
mesma estratégia para desmotivar o crime. Eu estava petrificado de medo. Depois
que Charles contou sua história, e que eu fiquei demonstrando interesse,
fazendo mil e uma perguntas para ganhar tempo de minha carona chegar, o
primeiro levantou-se e veio em nossa direção. É agora, pensei. Chegou o
momento. Não sabia como reagir, nem mesmo conseguia mais manter a aparência
tranquila. Eu estava transtornado e estava visível nos meus olhos. Presa fácil,
que não saberia nem para que lado correr. O rapaz reveio e disse que iria na
praça, perto do trailer de lanches, ver se descolava mais algum para comer
alguma coisa. Charles, mais que prontamente, enfiou a mão no bolso e disse:
cara, eu não tenho muito para ajudar. Estava guardando para juntar e tomar uma
pinga, mas tô vendo que hoje não vai rolar. Tirou do bolso uma moeda de vinte e
cinco centavos que entregou na mão do outro rapaz. O rapaz mais solidário do
que eu. Pelo menos mil vezes mais. Senti-me um lixo. Humilhado. Horrível, mas o
medo lá, ainda presente em cada poro do meu corpo.
Partido o primeiro para a praça, Charles me contou que tinha
um cachorro e que não era fácil conseguir comida pra ele e para o amigo animal.
Entre médio e pequeno, de cor amarelada, ele disse que Amarelo era sua fiel
companhia, e que mesmo sendo difícil ele se mantinha com o cão, porque um
cuidava do outro, e nas noites mais frias, um também aquecia o outro.
Investiguei o quanto pude a história do morador de rua com o seu cão, até que a
carona chegou. Carro estacionado, motorista olhando tudo e achando estranho, eu
me despedi e parti para ocupar meu lugar de copiloto, deixando Charles que nem
tinha para onde ir plantado ali naquela esquina vazia. Ele me pediu um dinheiro
também, pois que também tinha fome e sede. Abri a carteira, dei a ele uma moeda
de um real também. Não tinha mais moedas, apenas notas destinadas ao terapeuta,
que se eu pensasse bem, poderia ter dado uns dez reais ao rapaz que não me
fariam falta ao ponto de me prejudicar. E o rapaz com fome.
Entrei no carro e partimos. Charles para trás, e eu
transtornado de medo, fiquei ali naquele banco de carro recapitulando as duas
histórias que acabara de ouvir. Eu sofro de ansiedade, e tenho todo o respaldo
necessário para me tratar. Senti a injustiça social que eles sofriam e senti
também que agora eu era parte dessa sociedade que os discriminava. Ninguém me
assaltou.
Talvez o primeiro tivesse me assaltado se o segundo não
tivesse aparecido. Talvez Charles apareça somente para me proteger, porque viu
a atitude suspeita. Talvez os dois só quisessem ajuda e nunca pensaram em me
assaltar naquela esquina. De qualquer forma, ainda que por estratégia de
distração, dei a eles um pouco de atenção e ouvi suas tristes histórias. E eu
os julgara durante os longos 12 minutos que passei na companhia deles. Quem era
eu ao lado de Charles, que nem para si tinha e ainda ajudou o primeiro?, que
cuida de um cachorro de rua?, que veio ali e, ainda que não fosse sua intenção,
protegeu-me?, que tudo isso e eu, mesquinho, ali parado tremendo de cima da
minha empáfia favorecida.
Existe muito lixo nas ruas da cidade. Mas naquela noite, eu
vi também que existe muito lixo dentro das casas, bem confortáveis, com comida
quentinha. É assim que eu me senti depois da experiência. Um lixo e nada mais.
Uma única experiência mostrou que meu discurso de esquerda, de favorecimento
dos pobres, de não ao preconceito e à exclusão social, de amar a tudo e a
todos, tudo ali foi para o esgoto naquela noite. Eu não me sentia mais nada
daquilo. Apenas descobri o lixo humano que eu era. Lixo com dinheiro no bolso e
coração de pedra de medo e de falta de compaixão.
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segunda-feira, 15 de julho de 2013
Dia do Homem (pra quê mesmo?)
O dia do homem é todo dia,
numa sociedade de base machista e patriarcal, como é no Brasil e na maioria das
sociedades letradas. Qual o sentido de celebrar um dia para o homem? Todas as
ações do cotidiano das pessoas já reforçam a supremacia masculina perante a
feminina. A data foi recentemente criada, posterior ao Dia da Mulher. Parece-me
mais uma contra-palavra do que uma data com intensões de promover a igualdade
entre os sexos.
Se pensarmos na lógica do
Orgulho Gay, o que temos é um dia que enfatiza que o gay também tem o seu lugar
na sociedade. Um lugar que não pode ser exercido graças ao papel hiper ativo
dos homens. Como alguém disse e eu gostei, não é um dia para celebrar o fato de
ser gay, mas de reivindicações sociais em prol dessa minoria social. É estranho
se houvesse o dia do Orgulho Hétero. Não é vergonhoso ser hétero em nossa
sociedade. O grupo não precisa de reforços, não precisa sair do armário, não
precisa provar que é gente, não precisa nada disso. Os héteros existem e
pronto. Eles governam a vida social ainda. Não precisam de políticas de
auto-afirmação.
O Dia do Homem pode ser
pensado na mesma direção. Por que precisamos de um dia que reforce o caráter
masculino se já vivemos em uma sociedade machista, patriarcal? No outro lado da
moeda, temos o Dia da Mulher, que celebra a luta da mulher pelo seu
reconhecimento na sociedade e seu espaço nela. Mulher é burra, ganha menos, é
fraca, é incompetente, fofoqueira, fútil etc. Todos esses aspectos da mulher
são posições criadas por homens e adotadas inclusive por milhares de mulheres.
Também, você nasce numa sociedade que te diz e te mostra isso o tempo todo,
como discordar? Você nasce numa sociedade que diz isso milhões de anos antes de
você nascer, como discordar? Existe uma proposta coerente para o dia da mulher,
que não se replica na proposta do dia do homem.
Numa pesquisa sem muita
profundidade achei isso:
A
diretora da Secretaria de Mulheres e Cultura de Paz da UNESCO,
Ingeborg Breines, disse que a criação da data é "uma excelente idéia para
equilibrar os gêneros".1 Os
objetivos principais do Dia Internacional do Homem é melhorar a saúde dos
homens (especialmente dos mais jovens), melhorar a relação entre gêneros,
promover a igualdade entre gêneros e destacar papéis positivos de homens. É uma
ocasião em que homens se reúnem para combater o sexismo e, ao mesmo tempo, celebrar suas conquistas e contribuições
na comunidade, na famílias e no casamento, e na criação dos filhos (wikipedia).
Como se quer combater o
sexismo fazendo um dia para glorificar o grupo que já tem a força social maior?
Como se pretende equilibrar os gêneros se o homem já é o lado mais pesado da
balança? Não deveríamos colocar mais peso nos outros pratos para igualar de
verdade? Fora a saúde do homem, o resto da argumentação está em torno da
questão do gênero. Isso reforça a ideia que coloquei no começo do texto.
Celebrar as conquistas e contribuições na sociedade feitas por homens? É claro
que foi feita muita coisa por eles, afinal, eles coibiram as mulheres de
exercerem suas próprias vidas durante séculos! Alguém tinha que fazer o
trabalho, não é?
Na mesma página, temos
alguns objetivos, que eu destaco um: “Destacar a discriminação profissional
contra os homens nas áreas de serviços sociais, nas atitudes e expectativas
sociais e no direito”. Coitados, não? Não consigo aceitar o argumento, a
não ser se for para refletir sobre o que eles fazem com as mulheres. Um tipo de
“sentiu na pele, né?”.
No Brasil Escola, eu li:
O
artigo 1° da Declaração Universal de Direitos Humanos relata:
“Todos
os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de
razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de
fraternidade.”
O Dia do Homem tem igual importância ao Dia da Mulher,
pois ambos têm o seu espaço na sociedade e buscam objetivos semelhantes como a
promoção da vida, o bem-estar da família, o cuidado com o meio
ambiente e a busca pela saúde física e mental.
Bem, já discordei da necessidade dessa data
principalmente no que diz respeito ao gênero, mas aqui ainda existem outros
argumentos, como a promoção da VIDA, BEM-ESTAR da FAMÍLIA, SAÚDE FÍSICA E
MENTAL. Se pensarmos que os conceitos em caixa alta já são elaborados por
homens, é lógico pensar que tais conceitos os confortam bem. É tudo uma
construção de homem, feita de homem para homem, e as minorias que se encaixem
ou morram. Questão de gênero não é questão de saúde, de bem estar, de
desmatamento. Tudo isso é questão social. Não é questão discriminatória dos
pobres homens. Ser homem não tem nada a ver com reforçar esses aspectos, no meu
ponto de vista.
Na machista G1, filhinha da Globo, tem uma matéria sobre
o dia fatídico. Uma foto de uma família e a seguinte legenda: “Para a Professora Nayla Ferreira, no dia do homem, o
homenageado tem que cumprir com seu papel de chefe de família (Foto: Marcos
Dantas / G1 AM).” É isso, então. Ela não entendeu a razão pelo dia do homem
porque ela pensa como um homem. E ela pensa assim porque foram os próprios
homens que a ensinaram a pensar assim. Ela, professora, como dizem certos
políticos, precisa ser bem casada, porque seu salário não dá para bancar o
provedor da família. E a mulher? Não pode ser chefe?
Bom, esse assunto dá pano para manga. Eu vou parando por aqui. Eu sou
homem, sou gay, sou maioria às vezes, e às vezes minoria. Não quero esse dia
para mim. Eu passo, dispenso. Quem for homem de verdade e souber o que é ser
homem de verdade fora da posição machista que comemore. Mas eu duvido que haja.
O dia vai mesmo ser celebrado como qualquer domingo: um bando de machos jogando
futebol e bebendo cerveja, enquanto as fêmeas cuidam das crias, da limpeza do
ninho, da organização da toca. Somos animais, viva o dia do homem.
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#Eike pobreza de espírito
Nos últimos tempos, tenho visto
noticiado que a fortuna de Eike Batista reduziu consideravelmente de tamanho. No
entanto, o cara continua bilionário. Uma pessoa que já teve 27 bilhões de
dólares e agora possui apenas poucos bilhões não é um pobre. Bem, eu não
conheço a história do empresário, nem sei quais são suas empresas. Leio sempre
em manchetes que seu patrimônio está cada vez mais diminuindo e li agora que
suas empresas devem 23 bilhões. E então dizem “Eike empobreceu”. Não existem
pobres de 5 bilhões de dólares. Não sobraram ‘apenas’ 5 bilhões.
De qualquer forma, não estou
nestas linhas para falar do afortunado sob infortúnios. Quero apenas registrar
a reação que tenho visto das pessoas. Vejo muita gente feliz com o ‘empobrecimento’
de Eike como se fosse um trunfo, quase que uma vingança particular. Ora,
estamos no sistema capitalista. Uns em cima e outros embaixo. Não tenho
conhecimento de ninguém que ocupará ao seu trono que esteja ao meu redor, ou ao
redor das pessoas que estão ao meu redor, ou ao redor das pessoas que estão ao
redor das pessoas que estão ao meu redor, ou ao redor das pessoas que estão ao redor
das pessoas... chega, né?
Mas porque celebrar a “pobreza”
de Eike? Fazer humor com os fatos da vida é um traço do ser humano e, digamos,
uma característica inerente ao brasileiro. É comum vermos tudo, eu disse TUDO
virar piadinhas. Mas no fundo, eu vejo que essas piadinhas com o empobrecimento
de Eike está cheio de um algo que eu não consigo imaginar o que é. Pessoas brincam
na internet com situações típicas das classes menos favorecidas. Coisas que
seriam normais, ou ainda que são vergonhosas, são colocadas na rotina do
empresário para os internautas se divirtam. É engraçado? Ok, algumas podem ser.
Mas porque tanta gente celebra isso? Quem, de fato, está ganhando com isso?
Bem, na história com esse Eike aí, eu sei que tem um bom tanto de coisas que
podem estar erradas com a política nacional. De qualquer forma, nem todos por
aí politizados. Eu, por exemplo, sou muito pouco. Mas estou aí, lendo a
tragédia alheia, e lendo o gozo alheio com a tragédia alheia.
Mas por que será que as pessoas
se importam tanto? Vou ter que pesquisar muito para entender como o império
eikiano chega até mim, como ele me influencia direta e indiretamente. Mas não
acredito que eu chegaria ao ponto de me divertir construindo frases que colocam
o Eike em situações de pobre. Fiquei pensando se é inveja. Sério mesmo. Será
que não é inveja? Daquelas bem breguinhas de vilão de novela mexicana, do tipo “se
eu não tenho, fico feliz que você não tenha”. Eu, que não tenho patrimônio
algum, penso que se eu perder a mesma porcentagem que ele, eu sim estou
lascado. Não ele. Eu e as pessoas ao meu redor, e as ao redor das que estão ao
meu redor.
Bem, termino esse post com essas
duas dúvidas centrais: o que significa de fato a pobreza de Eike Batista na
minha vida, e por que as pessoas escarnam tanto essa situação? Será que só
porque eu não entendo posso chamar aqueles que entendem de invejosos, ou a
reação não é cabível mesmo? Não sei de nada. Sei da minha vida e dos meus
problemas. E é neles que eu foco minha energia e minhas piadas.
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domingo, 26 de maio de 2013
O alho e a cebola [que eu queria ser]
Eles estavam lá. Parados no mesmo
lugar não sei precisar quanto tempo. Digamos que tempo o bastante para se
entediarem com a condição deles de estáticos na cozinha perto do fogão. O calor
dos momentos culinários os fizeram despertar de dentro de si uma vontade imensa
de crescer. E assim fez-se o primeiro broto. A cebola já mostrava uma raminha
verde que fazia parecer nela um cabelo natural. Sabor cebolinha. O alho, de uma
das pontas, lançou ao ar também um singelo caule. Ambos ali, sem conversar um
com o outro, tiveram a mesma ideia. Eles estavam plenos de vontade de crescer.
De saltar da condição mórbida de serem tão simplesmente consumidos.
Vendo o desespero deles em querer
chamar a atenção para a real necessidade de suas vidas, eu me compadeci.
Primeiramente, como um bom ser humano, perguntei-me até que ponto aquele dente
de alho, saltado de um sorriso alhado, e aquela cebola, pulsante de cabinhos de
cebolinha, continham vida naquele corpo estático e cego. Quando vi que não
chegaria a conclusão alguma, resolvi agir mesmo assim. O dente de alho,
coloquei no vazinho de violeta, vizinhos que nem se falavam antes. Também, não
se viam. A cebola, esta foi parar dentro de um copo com água.
E foi o que aconteceu o milagre
da vida, que já havia naqueles corpinhos. O alho ganhou força que buscou na
terrinha e jogou o mais alto que pôde seus caules de alho. Talvez fosse novo
alho e se sentisse um pé de feijão mágico. Um pé de alho mágico, no mundo dos
alhos. A cebola em seu copo de água começou a jogar por todos os lados da outra
extremidade uns pezinhos de raiz. Se tivesse terra ali, provavelmente, ela
também se estabeleceria como moradora fixa do copo. Em outro bairro, outro
contexto, ainda na cidade da cozinha, fizeram uma comunidade muda. A violeta
desflorada, o alho e a cebola. Não se sabia quem queria mais da vida.
De qualquer forma, eles cresceram
tão prontamente, como se tivessem nascidos para isso apenas. Nem se lembram
mais hoje em dia que virariam temperos, de tão distante que essa realidade
ficou. E o que eu fiz para contribuir? Alimentei.
Depois de um tempo, fiquei
pensando. O que tem esse dente de alho e essa cebola que eu não tenho? Por que
eu não consigo fincar raízes e lançar ao alto meus ramos científicos? Esse alho
e essa cebola eram minha inspiração cada vez que eu olhava para eles. Mas
quando eu me via na força de fazer pulsar meus brotinhos, simplesmente eu não
conseguia. Imagino minha orientadora tentando me alimentar de alguma forma, e
eu me negando como uma criança mimada. Se eu fosse tão receptivo quanto o alho
e a cebola que eu ajudei a vingar... mas não. Eu não era. Então, estou aqui
nestas palavras tentando buscar dentro de mim uma porção heroica de alho e
cebola. Não sei a energia específica para fazer nascer o primeiro brotinho, o
primeiro pontinho de caule. Mas quando eu descobrir o segredo, quero ganhar os
céus também. Eu posso, porque eu também tenho dentes e cabeça. Talvez eu esteja
no bairro errado, deslocado, procurando um lugar de onde tirar os nutrientes que
me faltam. Mas eu me mexo. E se mexer sem saber para qual direção ir é o mesmo
que não se mexer. Igual aos dois, que sem poder se mexer, sempre souberam que
direção tomar. Eu quero ser um alho. Eu quero ser uma cebola.
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